Até quando negarão a construção sustentável?

 

Uma notícia recente no jornal O Globo anunciava que já está pronto o projeto de remodelação da Cobal do Humaitá, a ser lançado pelo governo federal no próximo semestre em uma Parceria Público Privada, com investimento previsto de 50 milhões de reais. Ilustravam a notícia duas imagens do novo projeto.

Digitalmente elaboradas, essas perspectivas mostram algumas características da proposta, como a cobertura mantendo o mesmo desenho atual, o que indica a provável preservação, ou a substituição por similar. O que não mostram, a nota explica: uma extensão da praça do Largo dos Leões, por um lado (Humaitá), e um calçadão arborizado, pelo outro (Voluntários da Pátria), prometem humanizar o entorno; assim como o deslocamento da área de carga e descarga do mercado para um estacionamento subterrâneo.

Uma reforma da Cobal do Humaitá, maltratada há muitos anos, é esperada e bem-vinda. Enquanto as lojas locais têm renovado os seus próprios ambientes, a grande estrutura, incluindo banheiros, vestiários, boxes, áreas de serviço e de carga e descarga, não recebe atenção há longo tempo.

Quanto ao projeto apresentado, a sua aparente simplicidade acaba encobrindo a complexidade técnica da proposta: a escavação do subsolo do prédio e o reforço estrutural necessário – para o estacionamento e toda a construção. No entanto, o que se destaca de fato é uma ausência das mais eloquentes: não aparece nenhum sistema de aproveitamento de recursos naturais; não há qualquer painel de captação de energia solar ou de água da chuva; nenhuma projeção de telhado verde, nem de uma horta para a cobertura – talvez a melhor solução para o local.

Senão vejamos. A área é relativamente extensa para um cultivo diversificado. As técnicas de cultura orgânica podem ser adaptadas às condições locais para o melhor aproveitamento e proteção contra pragas e poluição. Estudos sobre as variações na incidência de sol, sombras, vento e chuva, em todo o terreno ao longo do ano, serviriam para orientar a definição das espécies a serem cultivadas em cada área, bem como os seus rodízios sazonais.

Acompanhando o projeto apresentado, com a escavação do subsolo para o estacionamento (e aqui há que se dar especial atenção aos acessos de veículos, leves e pesados, para evitar que causem filas e transtornos nas vias ao redor), a terra retirada poderia servir para a horta no topo da construção; o solo, depois de décadas cimentado, poderia voltar a germinar na cobertura. E a horta funcionaria também como um isolante térmico, contribuindo para uma redução significativa da temperatura no interior do prédio.

A produção da horta poderia ir diretamente para o mercado local, sem intermediários, dispensando assim transporte, refrigeração, armazenagem, e reduzindo o dispêndio de energia, a geração de poluentes, as perdas do trajeto, e o gasto de tempo entre as pontas de produção e consumo (distância, trânsito, carga e descarga). Essa economia do tempo em trânsito é talvez a mais significativa para a economia da cidade, tanto financeira (menos custos), quanto ambiental (menos poluição) e afetiva (mais cidadania).

Considerando a proximidade do morro Dona Marta, essa horta orgânica deveria ser comunitária, funcionando como uma horta-escola para a formação de jovens nas práticas da agricultura, jardinagem, compostagem e reciclagem – o composto orgânico das sobras do mercado voltaria como adubo para a horta. E os alunos exercitariam suas novas habilidades ajudando a construir hortas e jardins em pequenos espaços da própria comunidade.

Evidentemente essa solução iria alterar a configuração do telhado e exigir um reforço na estrutura da cobertura, mas o esforço valeria a pena e os benefícios seriam amplamente superiores aos custos. Tendo em vista um projeto sustentável abrangente, desenhado para além da construção – e a Cobal do Humaitá é um espaço integrado à vida da cidade –, a proposta de uma horta orgânica comunitária é tão importante e viável como a de captação da energia solar, da água da chuva, telhado verde, ou qualquer outra tecnologia que seja mais eficiente e sustentável do que acatar as condições naturais como transtorno e desperdiçar o imenso potencial que oferecem.

Infelizmente, ainda hoje, em meados da segunda década do século XXI, parece ser norma em projetos governamentais (como nas Fábricas de Escolas da prefeitura do Rio) a indiferença absoluta em relação à sustentabilidade. Tema presente no currículo das escolas públicas (federais, estaduais, municipais), as tecnologias sustentáveis são por aqui, na prática, objeto de desprezo oficial.

Faltam leis? Fiscalização? Conselhos? Secretarias? Como garantir o cumprimento de normas de sustentabilidade na construção? Quais as medidas necessárias para a restrição de prejuízos ambientais e urbanos no processo de obra? Ou as normas cabíveis para o incremento da eficiência hídrica e energética da edificação? Mesmo sabendo que uma legislação específica, apenas, não resolve, e que é preciso, acima de tudo, orientação e fiscalização, não é com o apoio da lei que poderão ser realizadas essas ações?

 

Ricardo Tamm

 

 

 

       Proposta apresentada em março de 2016.

 

       Vista aérea do telhado atual.