A cara da cidade
O Rio de Janeiro se encontra em meio a
um processo acelerado de expansão e revitalização urbana que se estenderá,
seguramente, pelos próximos seis anos. A proximidade de dois dos maiores eventos
esportivos mundiais – Copa do Mundo de Futebol, em 2014,
e Jogos Olímpicos, em 2016 – vem estimulando a criação de inúmeros projetos que
vão transformar, para o bem ou para o mal, a cara da cidade. A imagem do Rio vai
mudar sob a ação de novas plásticas e adereços – com a construção, a
remodelação e a remoção de ruas, praças, avenidas, viadutos, edifícios, estátuas,
murais, barreiras físicas e visuais.
As mais recentes políticas e projetos para
a cidade prometem: a regularização do uso do solo urbano; a urbanização de
favelas; a preservação de edificações e logradouros de interesse histórico; a
construção de edifícios-símbolo da administração em curso (vide a Cidade da Música,
incompleta por associação ao ex-prefeito, e os novos museus do Amanhã, da
Imagem e do Som, e de Arte do Rio, pela administração atual); a aprovação de
projetos urbanísticos para a cidade (plano diretor, intervenções locais); e a
construção de edifícios públicos municipais e estaduais (hospitais, escolas, creches,
centros culturais e esportivos), a cargo das secretarias responsáveis dos respectivos governos.
Evidentemente, há ainda uma extensa relação
de outros projetos para a cidade, que vão incluir, além da construção de
instalações permanentes e temporárias para a copa e a olimpíada, os empreendimentos
da iniciativa privada e público-privada – condomínios, centros empresariais e
comerciais, shopping-centers. Vamos restringir-nos aqui a apenas algumas facetas
deste processo no qual estamos inseridos, e do qual muitas vezes só nos damos
conta quando já é tarde demais; isto é, quando a alteração na cidade ou é
irreversível ou o custo de sua reversão vai torná-la impraticável (o caso da
Avenida Perimetral é um caríssimo exemplo).
A primeira dessas facetas já foi levantada e algo discutida publicamente sem qualquer
consequência prática. As estátuas em homenagem a personalidades locais, em
tamanho natural ou hiper-dimensionadas, continuam a se
espalhar pela cidade. (Vale lembrar que não se discute aqui a homenagem, mas a
forma e o benefício para a cidade e o homenageado.)
Diz a lei – e o bom senso – que só se
pode erigir estátua em logradouro público em homenagem aos mortos (por esse
detalhe a cidade de Campos viu adiada a presença do casal-símbolo da política
local fundido em bronze e já sentado num banco de praça). Mas, corrigida a precipitação
(a peça foi retirada) se os realmente homenageáveis do passado são incontáveis, o que dizer dos que, ainda gozando de plena
saúde, algum dia cumprirão o seu inevitável destino, tornando-se também, a
despeito de qualquer vontade pessoal, alvo de cópias em bronze? Em Copacabana, igualmente
merecedores de todas as homenagens, quantos virão depois da Princesa Isabel, de
Ary Barroso, João de Barro (Braguinha), Drummond e Caymmi? Ipanema (que conta
com o seu caricato corneteiro) poderá receber uma infindável lista de
reconhecidos homenageáveis, que tiveram, tem, ou algum dia
terão alguma relação com o bairro. Há ainda, também instalados nos
últimos anos, o Zózimo no Leblon, Otto Lara Resende e Chacrinha no Jardim
Botânico, Noel Rosa em Vila Isabel, Pixinguinha e Manuel Bandeira no Centro, D.
Hélder em Pilares, e Michael Jackson no Dona Marta. Mesmo
louvando as homenagens e considerando a simpatia que despertam algumas destas
estátuas, no ritmo em que proliferam, cabe perguntar se seria mesmo esta a melhor,
ou a única maneira de prestigiar a obra e a prática profissional que esses
grandes personagens da cultura carioca criaram e desenvolveram em vida. (Nunca
é demais lembrar que nas escolas públicas da cidade faltam os meios necessários
– livros, biblioteca, instrumentos musicais, material artístico – para a educação
nas áreas específicas dos homenageados.)
A segunda faceta, maior em dimensão e
menor numericamente, são os edifícios públicos erguidos pelo governo e
projetados por uma equipe do mesmo time dos responsáveis pela sua aprovação.
Naturalmente, sobretudo em projetos divulgados como de autoria do governo
vigente, pode-se perder nestas circunstâncias o distanciamento crítico do
projeto mesmo. A pré-aprovação é um problema que a concorrência pública – não
manipulada – tende a resolver.
As concorrências abertas para as instalações
olímpicas e para a urbanização das favelas cariocas são casos extraordinários. É
preciso fazer da concorrência e do concurso público práticas regulares para a
escolha de projetos arquitetônicos e urbanísticos a serem implantados pelo
governo – depois de analisados e avaliados por comissões competentes. De
caráter extraordinário, deveriam ser a encomenda direta e a pré-aprovação de
projetos governamentais.
A terceira faceta, correlata à anterior, são as grandes obras de
arquitetura esportiva (estádios, parques olímpicos e aquáticos, velódromos) que
nos próximos anos serão construídas na cidade e no país – e nas quais um grande
volume de recursos econômicos e logísticos será empregado para atender às normas
da FIFA e do COI –, mas que tendem a ficar ociosas depois desses eventos e,
devido ao seu alto custo de manutenção, entregues à própria sorte. Alguns
estádios com capacidade para até 70 mil pessoas serão construídos em cidades
cuja média de público em dias de jogo (um ou dois dias por semana) não chega a
dois mil pagantes.
Assim como os novos elefantes brancos
sul-africanos, legados da última copa, construções monumentais ociosas estão se
espalhando pelo planeta, em todas as cidades e países que sediaram ou estão por
sediar eventos esportivos mundiais – por duas ou quatro semanas. Abandonados
(porque inviáveis ou obsoletos) e degradados, estádios vem sendo derrubados
para a construção de condomínios e shopping-centers, na maioria das vezes em
processos extremamente dispendiosos e poluentes; os mesmos que deverão ser
empregados em um grande número de demolições e reconstruções ao longo dos
próximos anos. Por isso, esta é uma oportunidade ímpar para se pensar nos
conceitos de reciclagem e sustentabilidade de forma ampliada. Se a cidade vai
virar um canteiro de obras, e o que se vai construir mexerá com a sua imagem e o
seu ambiente, que se aproveite a ocasião para incorporar métodos de construção
mais eficientes e menos danosos ao entorno (poluição, trânsito pesado, entulho).
Primeiramente, deve-se buscar a
reciclagem de tudo o que pode ser reaproveitado na própria reconstrução. Um
canteiro de reprocessamento de materiais no mesmo terreno da construção pode
reduzir os custos de transporte (com todas as suas consequências ambientais) e
desperdício – de material, energia e tempo. Novas tecnologias para o
reaproveitamento e a reciclagem de materiais e resíduos da demolição/construção
estão sendo constantemente desenvolvidas e aprimoradas, no país e no exterior –
e estão disponíveis em livros, revistas científicas e sites especializados (vide:
http://rcd08.pcc.usp.br/programa.html;
ou http://www.habitare.org.br/publicacao_coletanea4.aspx).
Depois, é preciso pensar na reciclagem
das próprias construções que serão erguidas; uma vez que o público e a
estrutura de uma copa do mundo e de uma olimpíada são evidentemente excessivos,
tais edificações não conseguirão se manter após estes
eventos. É aí que se pode pensar no reaproveitamento dessas instalações para
outros fins. Um estádio, ou um parque esportivo que, terminada a copa, ou a olimpíada,
ficaria ocioso, ou subaproveitado, com algumas alterações pode virar um condomínio,
um shopping-center, um hotel temático – estando a sua transformação já prevista
no projeto original. Projeto este que, além de estar alinhado com os novos
modelos de sustentabilidade (captação e tratamento de água, energia solar e
eólica, resíduos), poderia aproveitar o próprio campo, ou quadras e pistas como
atrativos para as suas instalações. Desta forma, empresas poderiam participar
do empreendimento, com a incorporação ou a compra para posterior adaptação e
exploração comercial da edificação. Naturalmente, reformas terão que ser feitas
para uma mudança de finalidade; o que se propõe aqui é que essas alterações
sejam projetadas previamente e que, na sua execução, sejam incorporados novos
processos construtivos, visando à redução de custos, desperdício e transtornos,
imediatos e futuros, para o ambiente, a cidade , seus
habitantes e visitantes.
Juntando as facetas: as próximas
construções do governo (municipal ou estadual) poderiam homenagear grandes personalidades
do passado, em concursos públicos com o júri composto por reconhecidos
profissionais do presente, premiando – e construindo – novos projetos para a cidade,
criados por arquitetos e urbanistas, dos quais não sabemos ainda o nome, ou a
obra.
Ricardo
Tamm
*
A reciclagem e o reaproveitamento das construções esportivas serão discutidas e ilustradas em “Complexos recicláveis”.