A tentativa de cooptar a pichação para o meio de arte faz parte de uma estratégia de controle institucional e de mercado – de produtos artísticos e do respaldo desses produtos pela curadoria e pela crítica de arte.
Levados para a Alemanha por um curador que queria restringir os pichadores às áreas disponibilizadas – falsas paredes brancas armadas na frente das paredes de uma igreja tombada – o projeto curatorial fracassou e foi confrontado na sua própria tentativa de controle institucional, quando os pichadores escalaram as falsas paredes e a fachada da igreja para pichar o mais alto e arriscado – e contra justamente aquilo a que estavam querendo submetê-los. Não fosse isso teriam deixado de ser pichadores para virar grafiteiros, confusão que rejeitam, justo porque, atuando no mesmo campo, fazem parte de outra ordem de expressão pública. Outra origem. Outra estética. Outro sentido.
Curiosamente, ou não, mesmo alguns pichadores fazem telas para o mercado de arte. Ou não porque podem separar as duas atividades, sendo a que paga o pão a de pintura de telas, ou de automóveis e paredes, como qualquer outra atividade profissional. Mas o picho mesmo não é para falsa parede (para depois ser leiloada?). Ou vai além dos limites ou não é picho. Nas fachadas rabiscadas pichar é correr alto risco. Mesmo levando para a Europa etc. e tal. Curadoria não cabe.
O anonimato pode ter muitas versões.
Anônimo não tem nome. Não tem assinatura nem autoria.
Pichadores usam apelidos. Suas marcas como nomes. A assinatura como autoria. Um grafismo único dentro da mesma linhagem de linguagem. De longe, para o passante, muitas vezes parecidos, quase iguais, para eles reconhecível cada um entre muitos e muitos juntos e misturados.
Como Banksy tampouco é anônimo, evidentemente. Ou estaríamos tendo dificuldade em identifica-lo como autor de suas obras. Não é o caso. Pelo contrário. Assina. Só não mostra a cara e criou um pseudônimo, uma marca. Não há anonimato, falta de nome, assinatura ou autoria.
Um Banksy tem valor de mercado. Ações de desestabilização desse valor fazem parte, são absorvidas e vistas como inerentes ao próprio circuito arte-mercado. Como a barraca de rua vendendo publicamente por pequena parcela do que realmente valem no mercado algumas de suas obras. O que faz pensar é em quem conseguiu aproveitar (já que o leitor não) para lucrar com isso? Um Banksy vale milhares e milhares de libras. Esse é o gancho da notícia para a mídia. No mundo todo. Com a foto e uma pequena legenda sai em todo lugar. Replicada por todo o lado alimenta a fama e o valor de mercado da marca.