Arte e cidade

 

Notícias recentes informam que o governador do Estado do Rio de Janeiro teria encomendado a um pintor, residente em Miami ou São Paulo, uma escultura em homenagem à garota de Ipanema, para ser instalada brevemente no bairro. Prometem também, agora pela Prefeitura, novas estátuas em homenagem a personalidades ilustres para serem espalhadas pela cidade.

Em um primeiro momento, o cidadão desavisado poderia pensar que é bom que os nossos governantes estejam pensando esteticamente, em prol do embelezamento da cidade. Mas aprofundando-se um pouco na análise da questão, pode-se perceber que há inúmeros problemas envolvendo tais iniciativas.

A começar pela encomenda a um determinado artista. O que será que impede nossos políticos e governantes de realizarem uma concorrência pública? Porque não buscar opiniões abalizadas antes de tomar decisões de tal relevância para a cidade? E por que Ipanema? A velha musa, já empalada por um obelisco e um arco na sua entrada principal, vai recebendo adereços de que não necessita (ela não é musa por acaso). Se o Rio pode se beneficiar com obras de arte pública, isto seria valioso justamente em seus bairros menos favorecidos pelas condições naturais. Mas o que acontece em Ipanema aparece mais, pública e politicamente, e a mania de marcar a cidade, e o bairro, com obras associadas a uma administração personalizada vem impingindo-lhe aberrações estéticas, como o obelisco com arco triunfal, esculturas promocionais (há artista com mais de quinze obras espalhadas pela cidade), vacas decoradas (por quem as comprou) e, agora, ilustrações tridimensionais.

Toda cidade necessita de um programa estético para pautar as intervenções no seu espaço público, para reger e cuidar do ambiente urbano. Este programa seria responsável pelo planejamento dos investimentos artísticos na cidade de acordo com as suas necessidades e recursos. Não havendo um planejamento ético e estético responsável, qualquer cidade estará, física e visualmente, à mercê da exploração desmedida de seus espaços públicos. É fora de propósito que um governador, ou um prefeito, encomende uma obra de arte para instalar permanentemente no espaço público de uma cidade sem consultar qualquer pessoa ou instituição da área, manipulando a cara da cidade sob o aval exclusivo do próprio gosto pessoal e amadorismo estético.

O amadorismo estético de um governante, admirador da arte, seria louvável e proveitoso para a cidade se deixasse a avaliação responsável, necessariamente criteriosa em se tratando do espaço público, para os devidos profissionais (críticos, artistas, teóricos, arquitetos, urbanistas). Sua admiração pela arte seria reconhecida se convocasse um conselho visual para a cidade, efetivamente capaz de deliberar sobre as ocupações atuais e futuras do solo urbano e do espaço visual da cidade.

Desde há muito tempo os processos oficiais mais comuns para a instalação de obras artísticas no espaço público do Rio de Janeiro têm sido a encomenda e a doação, frequentemente em homenagem a algum personagem ilustre da cidade, ou do país – todos avaliados pela fundação de parques e jardins. Sem uma política pública específica e atendendo aos mais diversos interesses, oficializou-se a ocupação livre de esquinas e canteiros da cidade com peças artísticas e promocionais.

As figuras-homenagens que proliferam hoje descendem das estátuas de ontem (até a metade do século passado). A forma pouco mudou. Mudaram, sobretudo, a posição e os homenageados. Antes, o alvo da homenagem, empertigado ou a cavalo sobre pedestal, quando não santo, seria rei, presidente, cientista, ou, ainda, personagens anônimos em lembrança de um acontecimento histórico. Hoje, figuras em bronze e tamanho natural de políticos, artistas, jornalistas, esportistas, espalham-se à vontade, em pé ou sentados, pelas calçadas, canteiros, esquinas e bancos da cidade. E se antes era preciso uma praça para justificar a ocupação pública, agora que desceram do pedestal, as homenagens se encaixam em qualquer lugar. Um imenso e crescente contingente de homenageáveis promete um entupimento da cidade por suas efígies. Sem desmerecer os homenageados, há que se questionar se esta é a melhor, ou a única, forma de se prestar homenagem a personagens ilustres: espalhando pela cidade figuras esculpidas à sua imagem, mais ou menos fiel.

Sendo conformadoras dos ambientes onde são instaladas e, em seu conjunto, da própria cidade, as peças promocionais e artísticas dispostas no espaço urbano devem ser analisadas, junto com o seu processo de instalação, não apenas esteticamente, mas também ética, jurídica e tecnicamente. Por isso um conselho idôneo, a-partidário, sem interesses religiosos, pessoais ou patrimoniais, de cidadãos conhecedores das matérias envolvidas, deveria ser formado para apreciar a situação, caso a caso, tendo a faculdade de recomendar a permanência ou a remoção de peças indevidamente instaladas (por falta de avaliação apropriada quando de sua instalação).

A situação de obras artísticas e promocionais na cidade depende de um programa municipal responsável quanto à ocupação de seus espaços públicos, re-organizando e transformando, mais do que acumulando elementos. E, quando da instalação de novas obras em pontos específicos, promovendo, então, concorrências públicas, abertas e transparentes, para que todos possam saber o que está sendo feito, e como, com a cara da cidade.

 

 

Ricardo Tamm

Artista visual e professor