Arte
e cidade (II)
Mais uma vez recebemos a notícia de
que o governo do estado do Rio de Janeiro encomendou uma estátua-homenagem para
ser instalada na cidade. Decisão do próprio governador, encomendada a um artista
escolhido por critério desconhecido, com o auxílio, na determinação da pose da
estátua, da secretária de Turismo, Esporte e Lazer.
O trecho acima bastaria para
exemplificar como vem sendo desconsiderado e maltratado o espaço público da
cidade na atual administração. Mas o caso não é isolado. O mesmo governo
anunciou, há pouco mais de uma semana, estar negociando com um pintor-galerista
de São Paulo uma ilustração tridimensional em homenagem à garota de Ipanema
para o bairro. E a prefeitura anunciou a forma do novo prédio-marco da
revitalização da zona portuária da cidade como uma vela náutica, à maneira de
Dubai (segundo a notícia), em uma proposta sem outra justificativa (ou autoria)
que não o gosto do prefeito.
Olhando um pouco para trás podemos constatar
que as coisas não têm sido muito diferentes já há algum tempo. Dezenas de peças
vêm sendo instaladas no espaço público da cidade há mais de uma década, fruto
de encomenda ou de doação (patrocinada por leis de renúncia fiscal para a
cultura), mediada pela Fundação Parques e Jardins do município – cuja direção declarou
não estar apta a avaliar propostas de ocupação pública senão tecnicamente, isto
é, se o local suporta o peso da peça e se não há prejuízo à circulação. Não há consideração
estética envolvida[1].
Triste
cenário para uma cidade considerada das mais belas do mundo por sua paisagem
natural. É claro que a
cidade cresce e demanda novas obras, podendo ganhar esteticamente com obras de
arte apropriadamente dispostas em seus espaços públicos; e prestar homenagem a
personagens importantes da nossa cultura, além de louvável, é fundamental para valorizar
a sua obra, e a própria cultura, mas é preciso discutir a melhor forma de
fazê-lo.
Em um país onde o acesso à
literatura, às artes visuais, ou à música (fora os sucessos das rádios) é tão
limitado, estátuas em bronze e tamanho natural de escritores e músicos não
contribuem muito para a difusão da cultura. Respeitando a importância de obras
e homenageados, não seria melhor editar, gravar, distribuir e promover essas
obras nas escolas do município? Ou, então, fomentar a literatura com bibliotecas,
e acervos, em nome de escritores e jornalistas; salas de música, com
instrumentos, em nome de músicos; ateliês, com materiais, em nome de artistas? Valorizar,
promover e difundir uma prática entre as novas gerações em nome de um artista, um
profissional de destaque em sua área é prestar-lhe a mais relevante das
homenagens; congelar-lhe a figura em bronze no meio da cidade torna apenas a sua
imagem – não a sua obra – reconhecida. E, mesmo elegendo como forma de
homenagem a instalação de obras de arte no espaço público, por que não promover
então concorrências públicas, capazes de estimular escultores e artistas a
criarem novas formas de expressão sobre o que, ou quem se pretende homenagear?
O Rio de Janeiro não
merece que a responsabilidade estética sobre o seu espaço público esteja submetida
apenas ao gosto do governador e do prefeito, secundados por secretarias e
fundações de turismo, esporte, lazer, parques e jardins, sem que haja qualquer instância
artística (pessoa, órgão, secretaria, ou fundação) envolvida. A situação das obras
de arte instaladas na cidade deveria passar por uma avaliação, caso a caso – da
obra e do espaço ocupado –, segundo critérios estéticos justificados, por
profissionais competentes e responsáveis (sem interesse direto nos casos
analisados).
O que poderia justificar a
arbitrariedade com que tem sido tratada esta questão seria, ou a
desconsideração da estética urbana como um problema de menor relevância, coisa que
qualquer um poderia resolver, ou a convicção de que estariam eles mesmos, governantes,
habilitados para decidir o que deve compor e marcar publicamente a cidade. Desconsideram
assim a relevância destes atos, vitais para a imagem da cidade, e que deveriam
ser correspondentemente tratados, mas que têm respondido antes ao gosto dos
próprios governantes, do que aos interesses da população.
Os administradores desta cidade têm
tratado o espaço público carioca como o seu quintal – de um palácio que habitam
temporariamente. E talvez seja esta a razão (temporal) da sua necessidade de marcar
esteticamente a cidade, uma tentativa de perenizar-se, querendo reconhecer-se nela
como em um espelho público de sua vontade pessoal.
A vaidade político-administrativa do
governante está na grande obra, com a sua marca e a sua cara. Tendo em vista a
execução dessa obra é que ele vai cercar-se de especialistas nas diversas áreas
da administração pública, como auxiliares nas respectivas ações e políticas
setoriais. Exceto, como temos visto por aqui, quanto à estética da cidade. Aí o
diletantismo dos ocupantes do cargo tem prevalecido, sem que qualquer justificativa
tenha sido considerada necessária.
Em uma cidade onde a arte não é reconhecida
como uma área cujo saber e conhecimento demandam experiência teórica e prática
específica, e a estética da obra de arte pública está submetida ao gosto dos
governantes locais, não se pode esperar muita coisa. E a manutenção deste
estado de coisas é danosa para a cidade e os seus habitantes. Enquanto há uma
infinidade de formas de arte pública, modernas e contemporâneas, presente em
diversas cidades do mundo (esculturas e instalações em pedra, madeira, aço,
borracha, sonoras, luminosas, táteis, interativas, etc.), permanecemos, por
aqui, congelados na homenagem em bronze à semelhança do homenageado. Como obras
de arte em outros meios e materiais não fazem parte da informação estética dos nossos
administradores, continuamos nos moldes em escala 1:1. Até quando?
Ricardo
Tamm
Artista
visual e professor
[1] Às vésperas das penúltimas eleições
municipais, em