Arte
hoje
Será mesmo arte a promoção e venda de
produtos estéticos para um público economicamente privilegiado, capaz de pagar altas
somas para ostentar a sua elegante propriedade?
Desestetizar essa propriedade foi uma
alternativa empreendida algumas vezes ao longo da história da arte contra esse
estado de coisas. Algumas dessas alternativas iam do primitivo ao grotesco (formal
e temático), da ironia ao protesto, e finalmente à desmaterialização do objeto
artístico. Mas todas essas formas de contraposição mais ou menos explícita ao mercado
de objetos de arte foram, de um modo ou de outro, por esse mesmo mercado
incorporadas e apropriadas. Sucessivamente foram sendo deglutidas pela
voracidade do consumo de bens subitamente valorizáveis e rapidamente lucrativos.
A absorção da produção alternativa
pelo mercado, que por um lado seria benéfica por estimulara a produção, por
outro seria prejudicial, ao tornar o mercado o próprio modelo e o objetivo dessa
produção. A produção cultural é muito maior do que o mercado resolve ou
consegue promover. E é evidente que o interesse fundamental de qualquer mercado
é o lucro. Não existe filantropia no negócio. Mesmo um colecionador que
estimula um jovem artista comprando-lhe a produção está contando (já pela sua
compra) com uma valorização desse artista. E para tal, o colecionador, como o
marchand, produtor, empresário, fará o possível (nem sempre eticamente) pela
promoção de suas escolhas e a valorização de seus investimentos.
Mas são os interesses econômicos os
melhores parâmetros para a produção cultural? A melhor política para a cultura
nacional é tratá-la como um produto de mercado? A parte do Estado na cultura
seria o de financiador da participação de galerias comerciais em feiras de arte
enquanto as escolas públicas (que atendem a dois terços da população escolar do
país) não têm os mínimos recursos para o exercício de qualquer prática
artística?
Para se ter uma idéia da consideração
do mercado em relação à produção artística, há alguns anos uma jovem galerista
carioca pontificou, em entrevista à imprensa, que se uma obra de arte não é
cara, ou é de artista iniciante ou é ruim. O que fez com que artistas não tão
jovens cotassem, na semana seguinte e no mesmo jornal, as próprias obras em
centenas de milhares de reais.
Há um mecanismo perverso e um prejuízo
evidente ao se tentar subjugar a produção cultural aos interesses do mercado e
ao limitar a arte ao consumo restrito e economicamente privilegiado: é que a
cultura vai sendo assim conformada por esse mercado e por seus mecanismos
promocionais cujos objetivos específicos são de caráter sobretudo econômico. É
por isso que a maior parte dos incentivos culturais via renúncia fiscal vai
beneficiar as próprias empresas patrocinadoras que, associadas aos seus produtos
culturais, conseguem uma propaganda particular com verba pública, bancada pelo
contribuinte. Será que a cultura lucra com esse sistema? E a sociedade?
Curiosamente, quando foi proposta há
alguns anos uma contrapartida social para a produção cultural contemplada com
verbas públicas, cineastas e produtores gritaram contra o que acusavam então
ser uma tentativa de dirigismo do Estado sobre a cultura nacional. Mas quando o
governo determinou temas restritos para a captação de recursos pelas leis de
incentivos fiscais para a cultura, os mesmos que antes tinham reclamado,
estavam já então preparados para aproveitar a oportuna aproximação temática da
própria produção com as novas diretivas oficiais. Coincidências, dirão.
O mercado é importante e parte
inalienável da produção cultural contemporânea, mas não pode ser o único
parâmetro dessa produção. O atual modelo de política cultural pensado e
praticado no país (mesmo o ex-candidato à Presidência da República cujo lema de
campanha era a educação afirmou que os temas da arte deveriam ser determinados
pelo governo, permitindo-se ao artista a liberdade quanto à linguagem da obra)
é um modelo que tende a conformar a prática artística, com o Estado servindo
mais para o incentivo do próprio mercado do que da cultura
Não está na hora de artistas,
produtores, e todos os envolvidos com a produção cultural, posicionarem-se claramente
quanto aos mecanismos e instituições que engendram e fomentam a sua prática?
Será que não importa realmente, sobretudo nesse país, como vem a grana, e de
onde? Em nome da cultura e da arte vale tudo?