Construção e sustentabilidade no novo Campus Educacional da Maré

 

Quem passa pela Linha Vermelha, na altura da Ilha do Fundão, se depara com as novas e imensas construções amarelas na frente do Complexo da Maré, destacando-se – livres dos painéis que escondem os barracos vizinhos – às margens da principal via de acesso da cidade do Rio de Janeiro.

Essas construções, em bloco, formam o Campus Educacional da Maré. Quatro já estão em funcionamento, outras quatro serão inauguradas em breve, e o projeto da prefeitura prevê a construção de mais dez unidades no local, totalizando dezoito escolas e creches para receber 10 mil crianças diariamente. Os números impressionam, mas a Maré tem hoje aproximadamente 130 mil habitantes, sendo 20 mil até 14 anos de idade, distribuídos em uma área de 800 mil metros quadrados – dos quais o Campus Educacional, de acordo com a prefeitura, ocupa quase 40 mil metros quadrados.

A proposta de turno único integral em escolas da rede pública, inspirada nos Cieps – como a construção em peças pré-moldadas pela fábrica batizada com o nome do Governador Leonel Brizola (melhor seria Professor Darcy Ribeiro) –, é animadora. Funcionando conforme o planejado, com salas de aula confortáveis, bibliotecas, laboratórios, ateliês, quadras, refeitórios, cozinhas, enfermarias, segurança, e professores dedicados (com carga horária justa e remuneração digna), deverá ser merecedora de todo o reconhecimento.

Além da “estrutura em pré-moldados”, a cartilha de apresentação do projeto da prefeitura anuncia como soluções sustentáveis: “paredes de vedação em painéis termo acústicos, climatização dos ambientes, tratamento acústico nas salas de aula”, e (em nota) “fachadas duplas com brises soleil, protegendo contra a incidência direta do sol e permitindo a passagem de correntes de ar". O que é bom, claro. Mas, em meados da segunda década do século 21, é pouco; sobretudo para um projeto governamental de tais dimensões.

Vale ressaltar que o termo sustentável diz respeito a processos e produtos cujo ciclo de produção, operação, consumo e descarte seguem princípios de responsabilidade social, econômica e ambiental. E que, dentre os aspectos a serem considerados em um projeto de construção sustentável, estão: o aproveitamento de energia solar, energia eólica, água da chuva, telhado verde, horta, compostagem, biodigestão; a eficiência luminosa, térmica, acústica, hídrica e agrícola, da construção e do terreno; a racionalização dos processos construtivos (redução de gastos, perdas e descarte, reaproveitamento e reciclagem); os equipamentos, materiais e produtos geradores de menor dano e maior benefício para a edificação, o meio ambiente e a sociedade. Esses aspectos se relacionam entre si e é a variedade de combinações que vai estabelecer a sustentabilidade em cada caso.

No Campus Educacional da Maré, o que acaba chamando a atenção é a falta de um projeto arquitetônico com características próprias, estéticas e funcionais, desenhado para o melhor aproveitamento das condições ambientais. A área é aberta, cercada de construções baixas, de frente para a Ilha do Fundão e a Baía de Guanabara, extremamente ensolarada e escassamente arborizada. Ventos e chuvas são também extremados na região. E, no entanto, não há no projeto da prefeitura qualquer previsão para o aproveitamento de energia solar, ou de água da chuva, por exemplo, quando as condições naturais deveriam ser as primeiras aliadas do projeto, incorporadas aos esboços e desenhos iniciais, para tirar partido das características do terreno (sol, vento, chuva, solo, geografia, entorno).

Agora, o que resta fazer, tanto para o que já está pronto quanto para o que está em construção, é a adaptação de sistemas de captação solar e de água da chuva nos telhados, compostagem ou biodigestão de resíduos orgânicos, e a criação de uma horta comunitária em área favorável. Para o que estiver ainda em projeto, uma nova situação projetual deve ser estabelecida, onde essas premissas sustentáveis não sejam mais acessórias nem adaptadas, mas condições primárias, éticas e estéticas do projeto, tornadas, a partir de então, exigências para toda a concorrência, licitação, ou licenciamento de obras públicas.

 

Ricardo Tamm