Quem sabe o que é o Centro de
Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro?
Ao completar dez anos, desde
a inauguração em novembro de 1997, o Centro de Arquitetura e Urbanismo do Rio
de Janeiro, em Botafogo, continua praticamente desconhecido do público carioca.
A despeito de sua localização – Rua São Clemente, próximo ao metrô de Botafogo
– e de dois grandes painéis, na grade frontal e na entrada da casa, a visitação
à última exposição no local mal chegava a quinze pessoas por dia. O que, para
um evento gratuito, naquele ponto, é pouco demais. Mas quem sabe o que é aquela
casa? Ou o que se passa ali?
Provavelmente,
diversos fatores devem contribuir para esse desconhecimento público. Desde a
escassez de recursos financeiros (infelizmente previsível por aqui), que não deve
permitir uma maior promoção de suas exposições e eventos, até a inexistência de
uma crítica periódica de arquitetura e urbanismo na imprensa carioca – o que
vai contribuir para manter a distância do público em geral.
Mas, considerando os
passantes – milhares de transeuntes/dia –, talvez sejam justamente os dois
grandes painéis de divulgação, aplicados na frente da casa, os primeiros responsáveis
pela distância do público em relação ao que acontece ali. Painéis estes que, de
certa maneira, refletem o resultado da transformação da casa em um espaço
expositivo do tipo caixa preta[1].
A
adaptação de uma casa do século XIX, que durante décadas abrigou uma escola,
para funcionar como um centro de exposições sobre a história urbana e arquitetônica
da cidade, serviu para restaurar a fachada original e criar internamente uma
caixa preta (fechada, dividida em três níveis, com iluminação apenas para as
peças expostas).
A caixa preta isola completamente
o ambiente interno do externo: da rua, da calçada, do jardim, bem como da
própria casa, e sua fachada. Não há relação entre o interior e o exterior. As
janelas estão cerradas pelas falsas-paredes da caixa. E um grande painel, interrompendo
a fachada, esconde a porta de entrada de tal maneira que não se pode saber se a
casa está aberta ou fechada.
Este painel na frente da
porta serve para criar uma área de passagem entre a luminosidade externa e a escuridão
interna da caixa, bem como para anunciar (para fora) as suas exposições. Função
em que faz par com outro imenso painel, instalado na grade da frente do terreno
– como um outdoor na altura dos olhos
–, que encobre quase totalmente a visão da casa pelos passantes. O que restaria
dessa visão está também encoberto pela vegetação alta, e afastado pelo único acesso,
lateral e escondido, ao terreno da casa (junto ao condomínio de prédios com os
quais divide hoje o endereço).
Dentre
as diversas questões implicadas neste caso, há que se perguntar se ainda está
ali a casa preservada. Ou se a fachada, retocada como cenário, e o interior, fechado
e transformado, não vão separá-la em duas coisas distintas, sendo a parte preservada
(fachada) apenas uma casca, ou uma superfície plana, como os painéis que a
encobrem.
Parece que se tentou criar ali um espaço
forçadamente contemporâneo, apesar daquele local. A realidade atual é que, com
esta configuração – ocultando a casa que lhe serve de abrigo e símbolo –, o Centro
de Arquitetura e Urbanismo não consegue se aproximar do público e,
conseqüentemente, não é freqüentado, nem pelos habitantes, nem pelos visitantes
da cidade.
Não seria então o caso de se
pensar em uma reformulação de projeto, por meio, por exemplo, de um concurso
público, sob orçamento limitado, tendo como premiação a exposição dos projetos
finalistas e a execução do projeto vencedor? Talvez desta maneira – e visando
uma abertura ao entorno –, o Centro de Arquitetura e Urbanismo do Rio de
Janeiro possa cumprir a sua proposta de disseminação da cultura arquitetônica e
urbanística desta cidade[2].
Ricardo Tamm
[1]
Assim como o “cubo branco” serve como espaço modelar para a exibição de
artes plásticas, a “caixa preta” serve modelarmente para o cinema, ou o vídeo,
bem como para o teatro (palco e platéia).
[2] Vide: http://www2.rio.rj.gov.br/smu/paginas/Centro
de Arquitetura e Urbanismo.asp (atualizado em 2004).