Perdeu
a censura
A recente retirada de uma obra de arte de uma exposição
(Erótica) no CCBB do Rio de Janeiro (vindo do CCBB de São Paulo, onde não houve
problema), impressiona pela arbitrariedade do ato, sobre uma exposição já em
andamento, ou seja, aprovada por diversas instâncias competentes. Esta
exposição, naturalmente, havia sido negociada com organizadores, representantes
do banco, e da justiça, inclusive com a determinação oficial de classificação
etária (como nos cinemas), e a sua restrição a maiores de 12 anos. De repente, um
deputado consegue suplantar essas decisões, impondo-se a todos os envolvidos, e
manda retirar a obra da exposição, impedindo a sua exibição pública.
Este episódio liga-se a eventos e questões afins em
diversos âmbitos da cultura nacional, em geral, e fluminense e carioca, em
particular; como a obrigatoriedade do ensino religioso nas escolas públicas do
estado do Rio, a ingerência política do Estado sobre a produção cultural no
país, a liberdade de expressão do indivíduo/grupo social, e a potência da obra
de arte.
Começando pela obra específica, muito embora inúmeras
interpretações possam ser legitimadas a partir da evidente evocação de seus
símbolos, estes se apresentam de maneira bastante sintética, como contorno
linear branco sobre fundo preto. A linha deste contorno é que encerra o
problema: dois terços desenham dois órgãos sexuais masculinos cruzados em X. A
associação dos pênis com os terços seriam impróprias, não apenas para menores
de 12 anos (ou 14, 16, 18 anos), conforme determinação do fórum de justiça local,
mas para qualquer cidadão. O mais curioso é que a obra em questão não poderia
ser considerada necessariamente anti-religiosa. Basta aceitarmos a nossa condição
de sobrevivência por meio da reprodução sexuada; sexo para reprodução é
religiosamente defensável. Assim o órgão masculino, como o feminino,
co-responsável pela manutenção da espécie humana, não seria, em si, ofensivo a
qualquer devoção religiosa.
A liberdade de expressão não é tema fácil. Limites
entre protesto, controle, excesso, repressão, são motivo de argumentações e
disputas bastante complexas. Censura tornou-se palavra tão genérica que poderia
ser aplicada à maioria das leis, o que dá motivo para as mais diversas reivindicações,
incompreensões e deturpações. Não podemos esquecer que são leis e
regulamentações sobre a vida em sociedade que, muitas vezes, conseguem impedir
abusos por parte dos próprios governantes locais (temporários).
E é justamente o poder abusivo do estado sobre a cultura,
como temos visto recentemente, que se tem exercido por aqui, em todas as suas instâncias.
O estado impõe o ensino religioso nas escolas públicas, o município impõe a
chegada da corte portuguesa para a produção cultural no biênio 2006-2007, e o governo
federal estabeleceu a copa de futebol na Alemanha como projeto privilegiado
para a cultura nacional no período. Assim o que temos é uma censura geral, na
forma da restrição de possível apoio a qualquer manifestação cultural não
submissa à orientação imposta pelo governo vigente.
O que houve no caso é emblemático da impostura do estado
frente à cultura nacional, tratada, ainda e sistematicamente, como objeto de
manipulação/imposição político-ideológica. Acontece que a obra em questão
(vejam foto) trata justamente disso. Neste caso, claramente, ganhou a obra. A
censura religiosa ratificou-lhe os sentidos e multiplicou-lhe o alcance. A
atitude autoritária reforçou exatamente o que pretendia evitar: a divulgação pública
daquela imagem. Perdeu. Espalhou-a por jornais e sites de todo o mundo. Resta apenas
aos responsáveis pelo sequestro e ocultação da obra, devolvê-la ao local de
exposição.
Ricardo
Tamm