Cultura para quem?

 

O futebol e o carnaval são, evidentemente, os mais conhecidos produtos de exportação do Brasil. Há mais de cinqüenta anos o mundo se encanta com a ginga brasileira, presente (pergunte aos alemães) mesmo no nosso jeito de andar, falar, tocar, e até de resolver restrições legais com um jeitinho, uma forcinha de alguém – numa cumplicidade sistemática que, por aqui, não é mais considerada corrupção.

Reconhece-se oficialmente, por exemplo, a cultura do apadrinhamento, da troca de favores, do nepotismo, do jabá, do caixa dois (e até uma cultura da fila), para justificar uma prática política (então culturalmente) desviada. Tudo vira cultura. Cultura vira desculpa.

Além da boa imagem, duas razões principais incentivam a avidez pelo rótulo cultural: a dedução fiscal para os seus produtos, e uma espécie de salvo-conduto ético quanto à prática social do agente cultural (artista, produtor, representante).

O exterior almejado nesses casos é a Europa e a América do Norte, culturas dominantes às quais miramos e pretendemos enfrentar pelo pasmo, pela admiração de incríveis habilidades. Como se somente o que nos fosse possível, o que almejamos é entreter, deixar-nos admirar pelo pasmo, pelo exibicionismo exótico. Isto é o que quer o mercado de lá quanto à cultura de cá. Não é preciso incentivo do Estado para isso. Se há coisas pelas quais pagam bem lá fora é pelos nossos mais famosos músicos e futebolistas. Nossos ministros e colegas de geração parecem não saber disso ao escalarem-se, ou aceitarem participar de uma série de shows para a exibição da cultura brasileira no exterior, cada ano em um país, à custa da irrisória verba federal para a cultura. Com a imensa carência cultural em todo o território nacional este abuso chega a ser criminoso. Para quem tem dúvida disso, tente responder às seguintes perguntas: quantas escolas federais no país não contam com as condições mínimas para a educação e a prática cultural e artística? Quantas crianças e adolescentes estão, atualmente no país, completamente alijados de qualquer forma de expressão criativa? Essa realidade é que mantém a cultura no círculo do privilégio econômico e social, ou da esperança na graça de Deus (como ganhar na loteria, ser jogador ou artista famoso).

            Curioso é que quem protestou contra uma contrapartida social para projetos apoiados pelo estado é capaz de declarar-se particularmente contra a restrição temática, mas, já que a presente imposição (coincidentemente) lhe favorece, vai tratar de aproveitá-la, e calar-se sobre o assunto. Assim também parece normal um ministro de Estado, desde que artista, reconhecer que a sua gravadora paga jabá para as rádios; ou promover oficialmente um evento, escalar-se como atração, e licenciar-se de suas funções oficiais neste evento para receber um cachê particular por isso. Como comparação imagine-se um empresário que, como ministro do planejamento, no meio de uma feira internacional, promovida pelo seu ministério, armasse o próprio estande para vender seus produtos. (O tratamento aproximado entre a cultura e o comércio faz parte do tom do atual ministério da cultura, que defende, por exemplo, a copa da cultura como um mercado para a exportação de produtos culturais.)

Generalizado assim, o termo cultural vai englobar toda a forma de produção na sociedade. O que, por um lado, reconhece-o imenso, e por outro, indiferente, distante de uma compreensão de seu campo – usado como um termo acessório aplicável a qualquer prática identificada no meio social.  Se investigarmos então seus sentidos e usos: cultura, em termos da química e da biologia, é o meio onde se desenvolve um sistema vivo; histórica e sociologicamente, o conjunto de práticas identificadas em uma sociedade (esporte, culinária, política, economia); artística e esteticamente, cultura será o conjunto de suas práticas expressivas; em termos da educação, o conhecimento (gerado, transmitido e) adquirido. Na consideração de um campo próprio à cultura, enredamo-nos nos termos da arte e da educação – também imprecisos pelo uso genérico. Como o termo cultural que (casuística ou ingenuamente) pode ser acoplado a qualquer prática, também o termo artístico adquire diversas associações (a arte da culinária, a arte do futebol, a arte da propaganda), tornando-se acessório.

Em entrevista a este jornal (Segundo caderno de 1/5), o novo secretário de cultura do Estado do Rio de Janeiro apontou os projetos prioritários do governo estadual para a cultura até o fim do seu mandato: as inaugurações da casa do samba e do museu do futebol. Apesar dos protestos do senhor secretário, samba e futebol são extremamente (e quase exclusivamente) valorizados no país há, pelo menos, cinqüenta anos. As indústrias do carnaval e do futebol estão entre as atividades mais ricas do estado, movendo milhões e milhões (de dólares, discos, público, patrocínio, propaganda).

O poder de criar, de transformar, de transmitir seriam os mais relevantes valores da cultura; não apenas reflexo das práticas sociais generalizadas, mas, sobretudo, a capacidade de transformá-las, recriando-as sob nova ótica. Por isso a importância de sua difusão, da educação e da arte.

Que tal experimentarmos, depois de anos de imposições, proibições e direcionamentos, deixar a manifestação cultural livre, sob a responsabilidade integral e particular de seus criadores. Que tal pensar em fornecer meios para a produção artística em todas as escolas do governo. Por quê não firmar parcerias empresa-escola para o suprimento desse material e instrumentos?

Deve ser muito bom rodar mundo como ministro ou secretário de cultura. Mais difícil deve ser batalhar para assegurar que todas as escolas federais (e estaduais, municipais) tenham material e instrumentos próprios para a prática artística, doados, por exemplo, por seus fabricantes, em parceria com o governo federal (estadual e municipal).

Um projeto como esse envolveria muito empenho e trabalho árduo – na sua elaboração, na articulação política para a aprovação no congresso, nas negociações por todo o país, e na tentativa atração de doadores, ou co-investidores, para a tarefa de desenvolvimento da cultura, e da educação, no país. Um trabalho mais para dentro (do país), do que para fora.