Dimensões da sustentabilidade

Sustentabilidade é um conceito relativo à ideia de desenvolvimento sem prejuízo e está usualmente associada a três dimensões: econômica, social e ambiental. O desenvolvimento econômico, para garantir a própria continuidade, deve coadunar-se com o desenvolvimento social e a preservação/renovação ambiental de forma a evitar que o esgotamento de recursos naturais, ou a deterioração das condições sociais o torne inviável. Teorias mais recentes vão associá-la ainda a uma quarta dimensão, referente à valorização da diversidade cultural ameaçada pela massificação promovida por interesses comerciais.

Considerando a construção e o desenho sustentável[1], esta quarta dimensão é estética, uma vez que a cultura está manifesta no projeto, no edifício, ou no objeto. É no seu corpo que se pode ver e sentir a cultura que o engendra; e é nele também que se pode perceber a descaracterização resultante da globalização cultural[2]. O tripé sustentável forma um tetraedro cuja orientação, nesse caso, é estética.  

   

O trabalho do arquiteto, do designer, do artesão é sempre estético, independente do gosto ou da função. Independente até mesmo da vontade, ou contra a estética, seu trabalho interfere no mundo com sua presença e aparência, esteticamente sustentável (ou não). Deve-se observar, então, não apenas as características formais[3], mas ainda: se atende ao que se propõe, com a forma que tem e no lugar onde está; e qual a sua relação com as pessoas, o ambiente, o entorno, a paisagem.

Não há fórmulas prontas; erros e adaptações podem gerar soluções melhores do que as intentadas. Cada caso vai depender de um jogo de variáveis próprias. Ainda assim, uma construção esteticamente sustentável deve atender a características e necessidades locais, ser receptiva/interativa com as pessoas, e se integrar, mesmo que por contraste, à cidade, ao ambiente e à paisagem.

A incorporação de novas tecnologias e materiais gerou uma diversidade de soluções onde, muitas vezes, a exposição do sistema é uma opção estética. E, assim como os sistemas e produtos sustentáveis, também o gerenciamento dos processos de construção, fabricação, e descarte, deve ter o objetivo de preservar o ambiente (natural e urbano), aproveitar e reaproveitar recursos naturais renováveis e reciclados, e evitar o desperdício e a poluição (aérea, térmica, hídrica, sonora, visual).

Com o devido planejamento para a redução de gastos e perdas, e a atribuição de preço justo a produtos e serviços, a economia sustentável beneficia as relações entre o cliente/consumidor, o profissional/empreendedor e o mercado.

No mesmo sentido, a construção, a fabricação, ou o serviço socialmente responsável envolve relações funcionais e comunitárias que respeitam o indivíduo, valorizam o seu trabalho, e promovem a integração com as comunidades onde se instalam, ou atuam.

 

 

Nós

O consumo sustentável aqui no Brasil parece estar em um estágio intermediário; ainda não disseminado, pelo contrário, relativamente baixo para a propaganda que se faz em torno, mas significativo o suficiente para alimentar a propaganda que se faz em torno. E esta tem se apropriado de certos termos referentes à sustentabilidade, atribuindo-os genericamente a produtos e empreendimentos, nem sempre legítima ou adequadamente[4], e disseminando-os a tal ponto que muitas vezes fica difícil saber a que se referem.

Menos mal que atualmente é possível buscar identificar os princípios praticados no processo de execução de um serviço, ou de fabricação de um produto. Evidentemente já há quem faça isso, mas temos que procurar onde se publicam informações confiáveis sobre as marcas que consumimos. Ou isso ou continuaremos alimentando empresas que muitas vezes violam princípios básicos de civilidade, mas que continuam crescendo porque continuamos comprando seus produtos, sem que liguemos tais fatos às nossas escolhas.

Com a informação disponível em rede, não podemos mais nos espantar com o que acontece com a sociedade e o planeta sem levarmos em consideração o nosso consumo (e desperdício) diário, ou o volume descartado ao longo de um ano. Multiplicado pela nossa expectativa de vida, talvez não haja muito do que nos orgulharmos no final. Por outro lado, qualquer hábito que mudarmos vai fazer diferença para os rastros deixados pela nossa existência aqui.

Quando o consumo sustentável e a reciclagem estiverem disseminados, quanta diferença para o planeta e para as próximas gerações. Cabe a nós praticar e estimular as mudanças, experimentar e propagar os seus benefícios agora, ou será tarde demais.

Sempre será tarde demais. Nunca é tarde demais.



[1] Desenho sustentável diz do desenho industrial, ou de produto, e de outras acepções como projeto, desenho arquitetônico, urbano, paisagístico, de interiores, ou desenho estratégico, organizacional, de produção, de gestão, de sistemas.

[2] Na Barra da Tijuca e no Recreio dos Bandeirantes, no Rio de Janeiro, por exemplo, é clara a incorporação de um estilo arquitetônico importado dos EUA e, mais especificamente, de Miami (na Barra, há também uma imensa estátua da liberdade em frente ao shopping New York City Center).

[3] Dentre as diversas características formais defendidas por historiadores, críticos e teóricos estão: expressão, estrutura, harmonia, ritmo,volumetria, escala, proporção, equilíbrio, dinâmica, contraste, textura, cor, luz.

[4] Recentemente a Volkswagen admitiu que nos últimos anos equipou 11 milhões de veículos com um software específico para adulterar testes de emissões de poluentes e assim vender veículos movidos a um falso clean diesel.