Em nome da
cidade
Nestes tempos de crise nesta cidade maravilhosa, recentemente
desclassificada da disputa para sediar as Olimpíadas de 2012, muito tem se
discutido, nos meios de comunicação, os seus problemas e as suas mazelas, em
todas as áreas (segurança, moradia, emprego, transporte, educação, saúde,
saneamento). E isso é muito bom; talvez sirva para ajudar a despertar o carioca
de sua passividade em relação à cidade e ao que é feito dela pelos poderes
públicos e os interesses privados, oficial ou oficiosamente.
Entre os complexos problemas que assolam uma megalópole do porte do Rio
de Janeiro – inflada e inchada ao ritmo do êxodo nacional em direção ao sul maravilha, e ao toque da caixa de
acordos armados entre gananciosos empreendedores de concreto e políticos
municipais –, salta-nos aos olhos por aqui os abusos cometidos contra o seu
espaço e a sua visualidade, como vem sendo destratada, ética e esteticamente,
esta cidade.
A questão é antiga como a própria cidade. As disputas pela ocupação do
espaço urbano envolvem: de flanelinhas, camelôs e pedintes, aos chefes do
tráfico e às campanhas de propaganda (política comercial) espalhando-se, sempre
crescentes, sobre canteiros e vias públicas; da apropriação indébita da calçada
e o rompimento do gabarito nas coberturas, à instalação de estátuas
comemorativas e esculturas pela cidade. Esse espaço é tão valioso que tem
servido, ao longo da história, como local privilegiado para a promoção pública
dos mais diversos personagens (monarcas, políticos, militares, arquitetos,
artistas), na forma de pirâmides, colunas, obeliscos, arcos triunfais,
monumentos e memoriais.
No Rio de Janeiro a situação de disputa agrava-se ao extremo com a
ocupação desenfreada e descontrolada de seus espaços, em contraste com a beleza
exuberante de sua paisagem natural. Os violentos abusos cometidos nesta cidade
em nome de carências sociais, incentivos culturais e interesses particulares,
se não conseguiram (ainda) desfigurá-la completamente, transformaram-na no mais
claro exemplo de uma sociedade desigual, de uma cidade ferida.
Reflexo simbólico de um país também riquíssimo e miserável, também
belíssimo e terrível, o Rio é uma vitrine do Brasil para o próprio Brasil e
para o mundo. Por isso deve ser louvada, em princípio, a recente providência da
administração municipal no sentido de formar um conselho competente para a
análise, a decisão e o controle sobre a ocupação física e visual da cidade;
afinal, o conjunto de suas obras e monumentos vai conformar esteticamente a
cidade, além de formar culturalmente seus habitantes.
Ainda que espantosamente tardio o despertar dos administradores (se não
havia comissão competente, como foram aprovadas as inúmeras peças instaladas
nos últimos anos?), o carioca deve aproveitar a ocasião para responsabilizar-se
pelo seu destino, retomando para si a sua cidade – cobrando e reivindicando
publicamente seus direitos de cidadão sobre o uso e abuso do espaço urbano. A
comissão está aí para isso, e por isso. Só a pressão funciona. Ou continuaremos
alijados de um processo que nos conforma, enquanto conforma a cidade. O poder
do tráfico é multinacional; o poder desta cidade é do carioca.
Ricardo Tamm