As histórias da arte
Muito se reclama na periferia de sua invisibilidade na
história da arte oficial, produzida nos centros hegemônicos detentores do conhecimento
e do poder discursivo. E é verdade que a história do centro só enxerga a
periferia à distância e sob a ótica de uma visão centralizada pelo próprio ambiente.
Como um farol que olha e ilumina o que está ao redor, em um campo e raio de
visão, mais ou menos ampliados ou restritos a cada leitura. Que vê apenas, ou o
que se lhe oferece à visão, ou o que pressupõe estar lá (à distância), porque
assim o interpreta de antemão, antevendo-o.
Acontece
que cada periferia visa o centro, e a si mesma em relação ao centro, com a
tendência à reprodução de papéis em relação a outras periferias, bem como às
suas próprias (sub) periferias.
No
Brasil, por exemplo, ressente-se a ausência das artes plásticas nacionais na
história da arte mundial, ao mesmo tempo em que se ignora a arte produzida por
nossos vizinhos continentais. A ignorância local em relação à arte produzida
hoje na Bolívia, na Colômbia, no Paraguai, Peru, Uruguai, Venezuela pode ser
medida pelas conhecidas exceções que fazem parte do circuito mundial, mediadas
(naturalmente) pelo centro. Isto é: o modelo de visão é da mesma maneira
limitado perifericamente e discursivamente centralizador.
Como será a história da arte do século 21? Esta que está
por fazer reclama uma outra história, um outro modelo ou dinâmica, uma história
da arte que olhe para o centro, para as outras periferias, e para as próprias,
sob uma nova ótica, onde localizações geográficas, ou de origem não se
sobrepõem aos discursos mesmos. E quem
fará esta história? As periferias, já que no centro é mais difícil de se livrar
do modelo tradicional. Além do que no centro o seu próprio poder de produção e sedução
vai moldar a visão do que se estabelece como central. Incluídas aí as
necessárias exceções, sob a égide politicamente correta da incorporação da
diferença – que, no mais das vezes, significa a reiteração do discurso centralizado,
capaz até de aceitar o discurso estrangeiro, pelo que nele se pode aproximar do
seu próprio olhar, ou então pelo exotismo do diferente.
Mas a questão seria antes de ineditismo narrativo, ou de um
discurso ainda não escrito, onde a história periférica não estivesse pautada
pelo sucesso do modelo central, pautada pela circulação institucionalizada pelo
mercado – o negócio das artes iguala feiras, mostras, salões, bienais,
trienais, ao redor do mundo. Essa outra história teria que evitar o ardil de procurar
a reprodução do mesmo modelo aplicado à periferia. Mas, antes, buscar aí o que
é local e visar daí o ex-centro. Não tentar encaixar ou enxertar a história da
arte nacional no meio da história central, mas enxergar outra história da arte,
local, onde as manifestações centrais, como modelos universais, influenciam,
mas não subjugam (como história menor). Só assim haverá uma história autóctone
da arte local, não mais periférica, como um apêndice da história central.