Imagens de propaganda enganosa

 

Um anúncio publicado no primeiro caderno do jornal O Globo no último domingo (7/12) fazia propaganda da Fábrica de Escolas do Amanhã da Prefeitura do Rio de Janeiro. Considerando a relevância de um projeto de construção de escolas de tal porte, vamos analisar as imagens apresentadas pela prefeitura para ilustrar a campanha publicitária e torcer para que seja propaganda enganosa.

Ocupando uma página inteira do jornal, uma montagem fotográfica mostra três crianças de 7 ou 8 anos de idade com o uniforme escolar sentadas em suas carteiras escrevendo. As três estão dispostas em fila sobre uma esteira rolante como se estivessem em uma linha de produção industrial. Ao pé da página, ao lado de outra imagem com uma projeção do modelo de escola a ser construído, o texto anuncia que o programa vai entregar 136 unidades de ensino, sendo quatro fábricas prometidas até o final do ano.

Antes de tratar da imagem, a se acreditar no que está escrito, com novas escolas climatizadas e turno único (mais tempo na escola), o programa é uma iniciativa importante para a ampliação e a melhoria das condições de aprendizado dos alunos das escolas públicas do município. Cabe perguntar apenas se três semanas é um prazo viável para a entrega de quatro fábricas, como prometido no anúncio. Se é para o final do próximo ano, o texto não diz.

Isso é o que está escrito, e é o que torcemos para que se torne realidade o quanto antes. Mas, voltando à imagem, o que está representado na peça publicitária é uma realidade que, pelo contrário, devemos torcer para que seja propaganda enganosa, ou lutar para impedir.

Salta aos olhos a disposição dos alunos sobre a esteira de linha de montagem, em uma das piores associações possíveis entre a escola e o aluno. Uma coisa é a escola física, a edificação e os seus equipamentos, outra é a escola como o lugar da educação e o símbolo de um processo que deve contribuir para a formação de indivíduos capazes de pensamento independente, de ação e opinião próprias. A esteira da linha de montagem de peças igualmente indistintas é a imagem justamente do oposto. Pelo menos desde Tempos Modernos (1936), de Charles Chaplin, a esteira rolante da linha de produção industrial é um símbolo universalmente reconhecido da padronização e da negação da individualidade. Usá-la em associação à educação infantil em 2014 é absolutamente lamentável, sob todos os aspectos.

Mas os problemas da propaganda da prefeitura, por incrível que pareça, não terminam aí. O próximo equívoco que ameaça o bom senso e o bem estar das crianças que vão estudar nessas escolas é o mobiliário escolhido. Vê-se claramente a disparidade entre as dimensões dos móveis e o tamanho das crianças que estão evidentemente mal acomodadas. A imagem mostra que nenhuma das crianças consegue apoiar os pés no chão, ou as costas na cadeira, e todas têm que levantar o ombro para conseguir escrever, uma vez que a mesa chega-lhes à altura do peito.

Finalmente, há a imagem do modelo da escola que será construída, onde, pelo que se vê no projeto, não foi levado em consideração qualquer princípio de sustentabilidade. Não está projetado nenhum sistema para o aproveitamento de energia solar, ou instalações para a captação de água da chuva, nem uma cobertura verde para a climatização do interior da construção. 

Torçamos para que todos esses problemas presentes nessas imagens sejam produto apenas de propaganda enganosa e que em nada correspondam aos atuais objetivos e projetos de obras da prefeitura para as fábricas e escolas que está construindo. Ou poderiam ser, justificadamente, motivo de ação pública.

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