Informação e fé

 

O embate acirrado e muitas vezes agressivo que vem sendo travado nas redes sociais sobre a possibilidade de impedimento da presidente do país, e que muito tem sido associado à paixão futebolística, na verdade parece ter um fundamento mais próximo da fé religiosa do que da paixão futebolística ou da convicção política.

            É a fé que nos permite a devoção ao incógnito, ao desconhecido, a algo sobre o que não temos a possibilidade, nem a necessidade de comprovação. Aí é o lugar da fé, da crença cega e absoluta em algo que nos é dito (mas interdito), contado e recontado (mas ainda oculto) até que nos convençamos de que é (a) verdade. Ou não aceitaríamos o humanamente impossível. Eis o mistério da fé.

Milagres e aparições são as bases da revelação para cristãos; foram as provas da desumanização de Jesus em sua vida terrena – desde antes do seu nascimento (a concepção imaculada) até depois de sua morte (ressurreição e ascensão). Mesmo assim São Tomé teve que ver e meter o dedo na ferida para crer. Nós, ao contrário do que muitos acreditam, cremos muito mais do que imaginamos ou temos coragem de admitir. Qualquer disse me disse nos convence da verdade que queremos, ou precisamos acreditar.

Ateus convictos são, muitas vezes, os mais supersticiosos. Incapazes de passar o saleiro à mão, sentar-se com mais doze pessoas à mesa, passar sob uma escada, sair por porta diferente da de entrada, ou pronunciar o contrário de sorte, entre tantas outras práticas vedadas, é comum se irritarem com quem os leva a cometer qualquer uma das interdições às quais devem respeito. E, normalmente, não se importam com as que não fazem parte de seu ritual. A consequência desses deslizes é sempre o azar (desculpe, falta de sorte).

Como se daria essa relação de causa e efeito, não interessa. Que força serviria para administrar a punição pelo pecado cometido, tampouco. Mesmo para a mente mais racional nenhum questionamento aí é bem-vindo. Receberam a informação, normalmente, de pais, ou parentes, aprenderam a lição, assimilaram-na como ritual e vão passa-la para seus descendentes, perpetuando assim uma prática que não tem explicação, mas que todos creem que devem obedecer e seguir, sob a ameaça de castigo por alguma forma de poder superior.

A fé na informação que nos chega – que procuramos e selecionamos – é fundamental para alimentar os nossos posicionamentos e as nossas paixões. Precisamos de reforço. Gostamos que pensem como nós e nos apoiem em nossas dúvidas de fé – quando a razão invade terrenos a ela interditos e põe todo o edifício construído em nome da fé sob suspeição. Nessa hora, o espírito grupal acolhe e recoloca nos trilhos da crença com mais informação confiável e realmente digna de fé.

“O impossível a gente faz na hora. Milagre demora mais um pouco.” Afixadas na parede da central de cópias, estas frases poderiam servir como lema para uma campanha de conversão e recrutamento de fiéis. Ainda que converter um religioso (para outra crença) pareça tarefa impossível, e recrutar um ateu (para qualquer religião), um verdadeiro milagre, com base na fé, tudo se resolve. Não há limites para o poder superior. Não fosse isso, não teríamos tantas novas igrejas surgindo em cada canto do país[1], nem tantas legiões mobilizadas a cada postagem pró ou contra a destituição da presidente. Compartilha-se para identificar correligionários e para cooptar novos fiéis para o credo.

O que nos move é a informação. Não há como escapar à tendência para a credibilidade (e vontade de compartilhamento) de uma versão bem contada e convincente, para um lado ou para o outro. E isso se dá na formação de cada indivíduo e vai se reformando, ou se transformando ao longo do tempo. As informações mais confiáveis só assumem o estatuto de verdade por conta do leitor. Para um (seu) contra leitor, as mesmas informações poderão ser contrapostas, ou negadas. Por isso, a fé nas fontes de informação nas quais nos baseamos para nos posicionarmos (pessoal e publicamente) é imprescindível.

            Na realidade não temos acesso a todos os fatos e documentos comprobatórios de culpa, ou não, de cada um dos citados nos esquemas de corrupção que vêm sendo delatados. O que temos acesso é a uma seleta de informações obtidas por meio de delação premiada (que vai beneficiar o delator proporcionalmente ao interesse e à gravidade da denúncia), divulgadas por diversos meios de comunicação, que as editam de acordo com o próprio credo e interesse. Muitas vezes contraditórias, essas informações serão selecionadas mais uma vez – confiáveis ou não – por nós, de acordo com o nosso próprio credo e interesse.

Assim é que todo o embate visceral travado nas redes sociais sobre o impedimento da presidente tem base em possíveis falsas premissas, ou, ao menos, suspeitas – passíveis de suspeição pelas versões fielmente interessadas de seus agentes. Só a fé salva tudo o que é enfileirado por cada uma das hostes em confronto. Os mais agressivos são seus fundamentalistas. A política é a desculpa. A culpa do outro é religiosa; ou psicanalítica.



[1] Em Botafogo, no Rio de Janeiro, três igrejas evangélicas e um centro espírita ladeiam a pequena rua que fica em frente à Igreja da Matriz; cinco credos em duzentos metros.