O PRINCÍPIO POLÍTICO ESTÉTICO
"Aonde quer que vás, serás uma pólis." 1
Vamos discutir aqui a presença e atuação do trabalho
artístico no mundo – o seu posicionamento político estético –, defendendo (de
saída) o princípio político de
posicionamento como inerente ao ser social (e particularmente, urbano); e o
princípio estético como ordenador formal-estratégico 2 das ações e
discursos de posição – especificamente, os artísticos 3.
Pólis
O sentido comum atribuído à palavra política é
derivado de pólis com o sentido de morada;
sendo política o governo e a
administração dessa morada 4. Mas, derivada de pelein, pólis
significaria ainda ser, vicejar, desabrochar 5. E é este sentido –
de ser e vicejar – que vai implicar no princípio político de posicionamento. Nesta
dupla acepção do político, bifurcada na origem da pólis, estão ambos os sentidos evidentemente vinculados um ao
outro, uma vez que é o ser (vicejante) que mora em lugar próprio (morada) – em
si mesmo, na cidade, no mundo.
Aristóteles, cujo bios
politikos é constituído pelo discurso (lexis)
e a ação (praxis), via a atuação na pólis como a realização do ser 6
– sendo ela (pólis) constitutiva dele
(ser), bem como ele, dela. Na pólis
todo posicionamento é político, não só pela localização (por estar nela
inserido), mas por ser-lhe constituinte, formando-a.
Político
Político é todo o posicionamento do ser frente às
condições presentes no meio onde ele deve ser. Tomada de posição diante do
próprio destino, político é o ato (ação e discurso), como posicionamento
social. Sendo o ser social, político, assim também o ser individual, mesmo
anti-social, é político. O princípio de posicionamento marca-se desde muito
cedo em nossas escolhas e ações. Opções, mesmo as mais pessoais – como
profissão, estado civil, relações sociais –, revelam posicionamentos políticos,
porque são formas de ação e reação frente à sociedade, com e contra os outros
habitantes da pólis. Todas as
posturas que assumimos, apresentamos e representamos publicamente, os caminhos
que tomamos e o que fazemos de nossas vidas realizam o político; entendido como
o princípio que, latente no ser, precipita-se em discursos e ações – então
éticas, estéticas, morais (ou politicamente engajadas 7).
Se a moral diz respeito ao ser subjetivo,
auto-determinado para a ação, e a ética à ação mesma – sua práxis social –, o
político diz ao ser pré-práxis, indeterminado, mas irremediavelmente impelido
ao posicionamento no mundo. A emergência da moral e da ética vai se dar em
função desta inevitabilidade do ser político – ser ou não ser ético, agir ética
ou anti-eticamente, vai dar qualidade ao posicionamento. Nem todas as ações
representam o princípio político, mas sim o conjunto das escolhas pessoais.
Fazer um lanche, por exemplo, não é político em si, mas o que comemos,
vestimos, fazemos, como, onde, quando e com quem – nossos comportamentos
públicos e privados –, representam formas de identificação e posicionamento
político na sociedade.
Cortes
Entretanto, não é por isso que iria confundir-se o
princípio de posicionamento com a vontade 8. A vontade moveria o
ser; o político estaria mais próximo ao princípio de movimento, à mobilidade
mesma do ser. Mas, diferente da necessidade, implicada com uma finalidade e,
assim, com uma orientação, o princípio político não direciona. Nem tampouco se
aproxima da pulsão, a empurrar-nos, mas, antes, de uma latência, em
precipitação ao posicionamento.
O princípio político não é motivo da ação, não a
dirige, e não vai qualificá-la. Por isso não seria da ordem da vontade, da
necessidade, da pulsão, nem da ética, ou da moral. Nem pré, nem sobre, nem
pós-ação, não seria ainda um instinto de qualquer ordem. O instinto daria
sentido ao posicionamento, como causa de sua ocorrência. O político não
justificaria por ser uma decorrência do ser em sociedade – o princípio de
posicionar-se, achar e abrir espaços de atuação pessoal na convivência social.
Se o sujeito pode ir contra a vontade e negar os instintos, não poderia tentar
negar ou ir contra o político, o que já seria parte de sua precipitação. Todo
posicionamento é político, nem todos instintivos.
Política
A política à qual nos referimos usualmente, vinculada
ao poder do Estado e à administração pública deste, distingue-se dos princípios
éticos e morais ao apresentar, em sua prática diária, discursos propostos a
justificar ações pessoais e partidárias moral e eticamente discutíveis. Segundo
Hannah Arendt (em A Condição Humana):
"Enquanto
acreditarmos que, na esfera política, lidamos com meios e fins, não podemos
impedir que alguém recorra a todos os meios para alcançar fins
premeditados." 9
Como os interesses do partido estão acima dos
interesses pessoais de cada um de seus membros, assim também as posições partidárias
estão acima das posições pessoais. Se não
ir com a bancada, ou não votar conforme a indicação do partido é
considerado como traição política e, assim, merecedora de advertência e
retratação pública (ou a expulsão do partido), conseqüentemente, não se vota, isto
é, não se representa posição política partidária somente com a própria consciência.
Estão envolvidos, então, desde os compromissos e alianças do partido, até as
promessas de campanha e as motivações pessoais. O que faz com que, ética e
moralmente, comprometa-se o sujeito desta prática política, ideologicamente
defendida e pessoalmente vinculada.
Na distinção entre o princípio de posicionamento e a
política partidária (atrelada a diversos interesses) representa esta política
(segunda), apenas uma das formas de manifestação do político (primeiro).
Arte política
Quando o Construtivismo soviético é apontado como
tendo operado um deslocamento da questão central da arte da esfera da estética
para a política, ou quando se discutem temas e ações políticas na arte das
décadas de 1960-70, por exemplo, está se tratando de formas de arte
declaradamente revolucionárias, engajadas em posições político-ideológicas
definidas 10.
Uma arte empenhada em ações que vão da propaganda ao
protesto, do suporte à revolta, em posições que a colocam sob risco – afinal,
ativista ou catequética, estará a serviço de atividades cujos fins não
contemplam propriamente critérios artísticos (senão quando submetidos aos
interesses da ideologia dominante). O pragmatismo de interesses negociáveis da
política partidária não permite desvios de desempenho prático duvidoso, como as
questões éticas e estéticas, a lhe questionar discursivamente – e ao próprio
ser político – em sua prática regular. Por isso Adorno vai recomendar que "em toda a arte ainda possível, a
crítica social deve ser erigida em forma a diminuir todo o conteúdo social
manifesto", desculpando a arte como
"… uma
forma de práxis que não se deve desculpar por não agir diretamente: mesmo se o
quisesse seria incapaz, porque o efeito político, mesmo da práxis dita
empenhada, é altamente incerto." 11
Ora, se o efeito de qualquer atividade empenhada
politicamente, por sua própria natureza, é altamente incerto, então a crítica
de Adorno dirige-se ao engajamento direto da arte na política social, como em
programas baseados nos efeitos positivos e pré-determinados de um tipo específico
de arte sobre a sociedade12. Programas estes, gerados e geridos
pelos interesses da política partidária, por trás, na frente e sobre qualquer
interesse da arte de que se apropria e faz uso.
Crítica política
É defendendo uma autonomia específica da arte que a
crítica modernista de Clement Greenberg, por seu lado, vai assumir uma posição
políticamente autoritária 13 sobre o meio onde se exerce (e o seu
poder); o que poderia ser lido eticamente, relativo à própria prática da
crítica e inerente à postura crítica diante desta prática. A relação com a
política pragmática, neste caso, sobressai por analogia (de modo), mais do que
por opinião política do autor – o posicionamento do discurso crítico ecoando
uma postura ditatorial em suas considerações, em seu método (ético) discursivo.
Como aponta Arthur Danto:
"… a
analogia política para o modernismo na arte era o totalitarismo …
"
Greenberg escreveu explicitamente … 'O extremo ecletismo que hoje prevalece …
não é saudável, e precisa ser combatido, mesmo sob o risco do dogmatismo e da
intolerância.'"
14
Político estético
O que vai particularizar o princípio político estético é a elaboração formal e estratégica da
posição. Podem apresentar-se esteticamente os discursos artísticos, bem como
filosóficos, jurídicos e históricos, por exemplo. O discurso esteticamente
trabalhado (compositiva, estrutural, estrategicamente) não é, necessariamente,
artístico, mas o discurso artístico é estético por princípio.
Na arte contemporânea elabora-se o estético em busca
da melhor saída para as questões postas em jogo por cada trabalho. Na saída,
como solução momentânea, suas articulações vão incorporar, em processo,
diversos discursos simultaneamente, sob ascendência variável. "Se as obras de arte são respostas à
sua própria pergunta, com maior razão elas próprias se tornam questões" 15, afirma Adorno. As diversas
significações que a arte vai articular, contemporaneamente, imbricam-se, por
contingência e dependência, na dinâmica entre forças e fluxos em ação em um
determinado momento local. Como ressalta (mais uma vez) Arthur Danto:
"Um universo
artístico pluralista pede um criticismo pluralista, ou um criticismo que não é
dependente de uma narrativa histórica exclusivista, e que toma cada trabalho em
seus próprios termos, em termos de suas causas, seus sentidos, suas
referências, e como estas são materialmente incorporadas" 16.
Posições
Quando Merleau-Ponty não cobra ao pintor a opinião
política, e Adorno afirma que, em arte, "poucas
coisas se fazem com opiniões políticas" 17, ambos
consideram o posicionamento significativo do artista expresso antes no seu
discurso estético (então ético, moral, político), do que na sua opinião
política declarada. Mas Adorno mesmo vai salientar que:
"Se, na
arte, as características formais não podem ser interpretadas politicamente,
nada, porém, existe nela de formal sem implicações conteudais, que se estendem
até a política." 18
O que implica a participação política do apolítico,
considerando Adorno que "o conteúdo
das obras de arte significativas pode afastar-se da opinião dos autores."
19 Essa posição é que a frase de Cildo Meireles: "Se a estética fundamenta a arte, a política
fundamenta a cultura" 20, não deixaria escapar ao artista.
Se a arte é fundamentalmente estética, ao mesmo tempo compõe, integra e
conforma, a cultura, fundamentalmente política. O que se pode tentar controlar
é a forma e a estratégia, o maior ou menor engajamento de cada posição.
Questão presente em
toda a história da arte, o posicionamento político estético vem sendo
discutido, atualizado e transformado ao longo do tempo, mais ou menos engajado
com, e contra, a situação política social vigente. Nas primeiras décadas do
século XX foram elaboradas e defendidas posições político-estéticas, que
encerraram de vez a possibilidade de inocência sobre o posicionamento do
discurso artístico no mundo.
Todo o discurso
artístico, além de seu trabalho interno, vai estabelecer a sua relação com as
condições de apresentação e recepção – local e no mundo. O campo do político
estético vai enredar assim contatos e choques: intradiscursivos (autocríticos),
interdiscursivos (entremeios), subdiscursivos (subliminares). Um trabalho de
arte pode questionar ou não a sua posição, referir-se ou não a ela, mas não
poderia evitá-la. Desde então é impossível recusar o político; tentar evitá-lo
seria almejar um não-político – já dele mesmo derivado.
Ricardo Tamm
NOTAS
1 "Senha da
colonização grega", segundo: ARENDT, H., A Condição Humana, Rio de
Janeiro, Forense (2001), p. 211.
2 Formal
estratégico porque não haveria um método para dar conta dos problemas de
execução de um trabalho, ou do desenrolar de uma ação artística; soluções são
improvisadas (inovadas) a cada situação.
3 Discurso
artístico como articulação significativa entre os elementos de uma linguagem ou
meio – literário, musical, visual, cênico (ver: BENJAMIN, W., Sobre el Programa de la Filisofia Futura (y
otros ensayos), Caracas, Ed. Monte Avila (1970); DUFRENNE, M., Estética e
Filosofia, São Paulo, Perspectiva (1972), pp. 48-49); LIMA, L. C., Teorias da Comunicação de Massa, Rio de Janeiro,
Paz&Terra (1990), p. 208.
4 Governo e
administração da polis, ou do Estado, de direito e de fato; muito confundidos
(já que o governo é que determina a administração), mas que não são a mesma
coisa. A compartimentação administrativa por sub-poderes, aliada aos interesses
de grandes grupos econômicos, resultam em uma administração do Estado rachada
e, freqüentemente mesmo contrária (legal ou ilegalmente) aos interesses e às
posições governamentais – escapando assim ao governo de direito, não só a
administração, como, também, o governo de fato.
5 Sinônimo de
"einai" e "emmenai", em Parmênides, Sobre a
Natureza (DK 28 B 1-9) in: SOUZA, J.
C., Os Pré-Socráticos, São Paulo, Nova Cultural (1991), pp. 75-92; ver:
HEIDEGGER, M., col. Os Pensadores, São Paulo, Abril Cultural (1983), pp. 160,
172, 180; e SODRÉ, M., in: KOSOVSKI, E., Ética e Comunicação, Rio de Janeiro,
Mauad, (1995), p. 53.
6 Para o cidadão
da polis, "homem livre", não escravo ou bárbaro; ver: ARISTÓTELES, A
Política, São Paulo, Atena (1955), pp. 19-21; ARENDT, H., op. cit. (2001), pp.
34, 40-41, 210, e O que é Política?, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil (2002),
pp. 46-47.
7 Politicamente
engajada, com ou contra a administração do Estado e a sua representação pública
oficial; política ativista, partidária, ideológica, pragmática.
8 Para vontade, pulsão, necessidade e instinto, ver: LAPLANCHE e PONTALIS,
Vocabulário de Psicanálise, Rio de Janeiro, Martins Fontes (1991); e ASSOUN, P.-L.,
Freud e Nietzsche, São Paulo, Brasiliense (1989), pp. 93-126.
9
ARENDT, H., op. cit. (2001), p. 241.
10
Ver: BRITO, R., Neoconcretismo (1985) p. 22; e LIPPARD, L., in: BATTCOCK, G., A Nova Arte (1975),
pp. 177-189; ROSLER, M., in WALLIS,
B., Art after Modernism, Boston, Godine (1985) pp. 311-339.
11 ADORNO, T.,
op. cit. (1982), pp. 261, 280; note-se que a "Teoria Estética" de
Adorno, publicada, postumamente, em 1970, abarca seus escritos ao longo dos
anos 50 e 60 (até a sua morte, em 1969).
12 O Realismo
Socialista seria o mais evidente, mas, de alguma forma também, não apenas o
Construtivismo soviético, como a Bauhaus, De Stijl, ou os grupos de guerrilha
artística das décadas de 60 e 70, supunham esse benefício social.
13 Ver:
STEINBERG, L., Outros Critérios, in:
FERREIRA, G., Clement Greenberg e o Debate Crítico, Rio de Janeiro, Zahar
(1997), pp. 181, 186-7.
14
DANTO, A. C., After the End of Art,
New Jersey, Princeton U. Press (1995), p. 70 (tradução livre). Note-se que essa
declaração de Greenberg é da década de 1940; ver: O'BRIAN, J., The Collected Essays and Criticism:
Perceptions and Judjements, 1939–1944, Chicago, Chicago, U. P. (1986), v. I,
P. 213. A omissão do Construtivismo
soviético da história da escultura do século 20 na crítica francesa, americana
e alemã dos anos 50 e 60, de que reclama Benjamin Buchloch, é uma ignorância
opcional. A ignorância dessa mesma crítica em relação aos movimentos
sincrônicos na América do Sul dos anos 50 e 60 se deu porque a distância
cultural é ainda maior, nossa periferia mais excêntrica; omissão assim por
desinformação e desinteresse; ver: BUCHLOCH, B., in: ROWEL, M., Qu'est-ce que
la Sculpture Moderne?, Paris, Centre Pompidou (1986) pp. 254-274; BELTING,
H., em Revista Arte e Ensaios nº 9 (2002) p. 166; e BRET, G., em Revista Arte e
Ensaios nº 8 (2001) p. 137.
15 ADORNO, T.,
Teoria Estética, São Paulo, Martins Fontes (1982), p. 17.
16 DANTO, A. C., op. cit. (1995), p. 150. Note-se que o
final do trecho citado, "… e como
devem ser entendidos.", também aponta para um fechamento
interpretativo, ordenativa e imperativamente resolvido pelo seu autor (Danto);
mas essa discussão, aqui, desviar-nos-ia excessivamente do rumo de trabalho.
17 ADORNO, T., op. cit. (1982) p. 260, e MERLEAU-PONTY,
M., col. Os Pensadores, São Paulo, Abril Cultural (1984), p. 86.
18
ADORNO, T., op. cit. (1982), p. 285.
19
Id. Ibid. (1982), p. 287.
20
MEIRELES, C., in: Revista Lapiz nº 161 (2000) p. 38.