RECICLAGEM E DESENHO SUSTENTÁVEL

Reciclagem é um dos temas mais frequentes no noticiário e na propaganda em todo o mundo, tendo inspirado, nas últimas décadas, inúmeras campanhas voltadas para a preservação do meio ambiente e dos recursos naturais do planeta. As consequências dessa tomada de consciência (de sermos responsáveis pelo que consumimos e pelo lixo que produzimos) vão abarcar, além do ambiente, esferas sociais, econômicas, políticas, éticas e estéticas. A sustentabilidade se impôs como prioridade. O que fazemos com isso?

Reciclar é um termo – hoje quase palavra de ordem – amplo e múltiplo. Diz-se popularmente que é preciso reciclar-se, para uma pessoa não permanecer estagnada, repetindo-se. A própria vida imporia isso. O corpo, com o tempo, cresce, amadurece, envelhece. As condições de vida mudam, queiramos ou não. Como a matéria de que dispomos é a mesma – a nossa própria história se desenvolvendo entre outras –, é necessário reciclar e renovar nossas ideias e ações para acompanharmos os movimentos inerentes à vida, em todos os seus ciclos.

Incontáveis mutações e reconfigurações ocorrem aos nossos olhos incessantemente, desde que os abrimos para o mundo. O mundo se move. Eu me movo. Co-movemo-nos. Nunca banhamo-nos duas vezes no mesmo rio – quando já não somos (noutro rio) os mesmos de novo. Antes, inconstantes, semoventes, co-moventes, somos (naturalmente) metamorfoses ambulantes.

Popularmente também se diz, citando Lavoisier, que na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma (inclusive esta frase, sempre mencionada quando se trata de reciclagem). Transformamo-nos e transformamos as coisas. Reciclamo-nos e reciclamos o que usamos e já não nos serve mais – por nós mesmos e pelas futuras gerações, pelo nosso bem estar e para não morrer nem matar por danos causados pelos nossos maus hábitos de consumo.

Reciclamos racionalmente. Com a informação, as campanhas, os decretos e leis existentes atualmente sobre o tema, o descarte irresponsável do lixo, além de injustificável, pode ser crime. E acarreta prejuízos que vão do desperdício e da poluição ao entupimento e à contaminação de rios, mares, ruas, bueiros e redes de água e esgoto da cidade. Melhor reciclar. Tanto pelo reprocessamento dos materiais usados, então decompostos para a fabricação de nova matéria prima, quanto pelo reaproveitamento (sem decomposição) desses materiais para outros fins. Ambos os processos, visando à transformação dos materiais descartados para a reinserção no circuito de produção, caracterizam-se como métodos de reciclagem (diferindo do reuso de objetos com a mesma função ou função similar).

Sustentabilidade e reciclagem são termos muitas vezes usados para tratar de objetos e coisas feitos de outras coisas, mesmo que essas outras coisas sejam novas. Mas, naturalmente, se forem novas, não se trata propriamente de reciclagem. Apenas de mudança de função. E se não forem economicamente acessíveis, não haverá um benefício amplo e relevante para o ambiente e a sociedade, nem a prática sustentável. Esta se baseia no tripé ambiental, social e economicamente sustentável, bem como em meios de produção eticamente responsáveis.

Praticamente todos os materiais podem ser reciclados, até certo ponto. Ponto que, de antemão, não podemos saber ao certo qual é (ou será). O tempo, agindo sobre as coisas, e a história própria de cada coisa – de que é feita e pelo que passa – vão determinar a sua longevidade. Acidentes podem abreviar ou determinar o fim dessa coisa. Mas o material de que é feita, na natureza ou reciclado, poderá sobreviver-lhe indefinidamente.

Enquanto o reprocessamento dos materiais para a reconversão à matéria prima vai movimentar um complexo sistema de produção, o reaproveitamento de materiais descartados para outros fins é um processo relativamente simples. O tratamento e a preparação desses materiais para a produção em série de peças específicas tem baixo custo e um consumo de recursos reduzido. No entanto, a despeito de embalagens, invólucros e carcaças de diversos tipos e materiais serem descartados em grande volume, diariamente, o tratamento desses materiais para o reaproveitamento em linha de produção é ainda pouco explorado.

É neste campo que podem atuar novas empresas, capazes de desenvolver tecnologias de beneficiamento direto de materiais usados, para produção de objetos de desenho sustentável. O termo desenho sustentável diz respeito aqui não apenas ao desenho (design) das peças, mas, ainda, ao desenho dos processos de produção e comercialização. Onde os materiais descartados poderão ser tratados e renovados para a criação de novos objetos, reciclados e recicláveis. E onde os principais agentes do processo poderão ser também seus beneficiários diretos: jovens em treinamento com novas tecnologias de reciclagem, aprendendo e contribuindo para o desenvolvimento destas, com participação nos rendimentos sobre a produção.

A cadeia: matéria-prima–produção–consumo–descarte transforma-se no ciclo: material reciclado–produção–consumo–reciclagem. E as relações de trabalho vão tornar-se também formativas, com jovens aprendizes recebendo treinamento profissional, além de participação nas vendas das peças que contribuírem para produzir e vender.

Levando em consideração os processos de produção, e com o acesso às ferramentas de pesquisa e informação de que hoje dispomos, é possível que tornemo-nos consumidores não apenas do que seria benéfico para nós, mas também do que é produzido eticamente – sem o emprego de práticas abusivas e prejudiciais ao ser humano ou ao meio ambiente. Isto é, um consumo consciente. Princípio e fim para a reciclagem e o desenho sustentável.