Sendo
dados: Duchamp, arte contemporânea e crítica periódica
Uma questão já antiga, e talvez sem
fim (pois a uma solução, propriamente, não se prestaria), é recorrente na crítica
à arte contemporânea: o que define uma obra de arte?
E Marcel Duchamp é apontado como o
principal responsável pela transformação na prática e na interpretação da arte produzida
nas últimas décadas. Sua obra teria aberto um desvio estético e conceitual que
a arte contemporânea seguiria, afastando-se dos valores universais – formais e
temáticos – aos quais a obra de arte, até então, deveria aspirar. Mesmo o
Cubismo teria aspirado a um Belo como Verdade: a realização pictórica da
percepção no espaço-tempo.
Infindável seria a tentativa de
identificar a influência desse desvio na arte contemporânea. Basta dizer que a
maioria dos movimentos artísticos das décadas de 1960 e 70 para cá teve a obra de
Duchamp como referência, e que nos últimos vinte anos esta referência tem sido reiteradamente
invocada e evocada por artistas, teóricos e críticos (bem como a arte dos anos
60/70, já a ela referida). Ainda que tenha levado algumas décadas para se
espalhar – diferente do cubismo, por exemplo, logo absorvido e seguido –, desde
então a influência do desvio duchampiano é imensurável. E é contra a permanência
desse desvio na prática e na estética artística que alguns críticos vão se
armar, denunciando o vazio estético da obra de Duchamp e da sua mais famosa
jogada, o ready made (objeto comum
escolhido como obra de arte). Classificações como fraude, engodo e blefe são
comuns a essas considerações.
Acontece que a escolha do ready made (segundo o próprio Duchamp)
seria mesmo destituída de qualquer interesse estético, e o blefe justamente parte
de sua estratégia. Duvidoso o desinteresse na escolha do objeto, e duvidoso o
blefe, é preciso tentar entender o desvio duchampiano, e o porquê de sua recorrência
na arte contemporânea.
desvios
O desvio de Duchamp, na verdade, são
desvios – com ramificações desviadas de um desvio anterior, indefinidamente. Se
considerarmos o ready made como o
desvio original, por exemplo, teremos que eleger o primeiro ready made como um marco. Todos os outros
ready mades viriam da Roda de bicicleta, de 1913. Mas, sobre
esta obra, pode-se alegar que tem base na escultura (pedestal-banco,
objeto-roda, técnica-montagem) –, que segue ao Nu descendo a escada, de 1911/12 – pintura em que Duchamp tenta
captar o movimento de um corpo diante do observador –, e precede aos Roto-relevos, da década de 1920, peças
giratórias presas em suportes de madeira.
A idéia de reter, representar, estudar
ou reproduzir o movimento na fotografia, na pintura e na escultura é comum a
contemporâneos seus, como Muybridge, Carrá, Severini, Boccioni, Tatlin, Rodchenko,
Mohóli-Nagy. Mas Duchamp vai evidenciar e aprofundar esta idéia na Roda de bicicleta, nos roto-relevos (1920-25), na Noiva desnuda por seus celibatários, mesmo
(1915-23) – rétard em vidro –, bem
como na prática do xadrez, que o ocupou dos anos 1920 até o fim da vida (1968),
jogo onde cada lance retém o movimento em um instante do embate. Cada obra de
Duchamp é um lance de uma estratégia desviante, em um jogo permanente com a
arte, em todas as suas instâncias.
Tomando-se 3 Paragens Padrão, de 1913-14, Porta-garrafas,
de 1914, e Fonte, de 1917. Marcos
desviantes na prática e no entendimento da arte, estas obras são frutos de ações
que vão desafiar as esferas que concernem à obra de arte e aos seus circuitos:
desde a criação da obra pelo artista, passando pelo reconhecimento da obra no
meio da arte, até a recepção da obra pelo espectador.
3
Paragens padrão é a
ação de criação dela mesma, obra. Um metro de linha largado repetidamente (três
vezes) da altura de sua própria extensão na vertical desenha três padrões
diferentes no chão. O objeto final é uma caixa-escultura contendo os registros
das três repetições recortados em réguas de madeira. 3 Paragens é o seu próprio método de criação, entre causalidade e
casualidade. O coeficiente artístico da obra, como escreveu em O Ato Criador
(1964), na equação entre o que o artista queria e não conseguiu, e o que
conseguiu sem querer.
Porta-garrafas é o ready made por excelência; a ação simples de deslocamento do
objeto, da esfera funcional (do real) para a artística (do artifício). Como em In
advance of a broken arm, mousetrap,
ou hat rack, a escolha do objeto
seria esteticamente desinteressada, ao mesmo tempo causal e casual. O método é
o mesmo. Dentro de uma situação pré-determinada (encontrar um objeto readymade), um encontro casual (a
escolha do objeto) e uma ação causal (a transformação em obra de arte).
E
Fonte é um ready made corrigido,
um mictório invertido como uma fonte (com a entrada de água voltada para o
espectador) que surpreende a expectativa do público, provocando suas projeções
(despejos) sobre a obra, penetrada (de sentido) pelo espectador (macho). Esses
despejos de sentido vão torná-la fonte, em um circuito corporal-cerebral com o
espectador.
desvio
Desde o ready made a obra de Duchamp vai elaborar as suas próprias relações
com o espectador e o mundo. O que envolve a obra mesma, como questão, e a arte,
como questionável. E além do ready made,
cuja realidade mesma é um desvio, os meios empregados seriam também desviados de
suas características próprias.
A
noiva desnuda por seus celibatários, mesmo, de 1915-23, por exemplo, é uma pintura em vidro, onde a representação gráfica da terceira
dimensão funde-se ao espaço real; um painel ao qual se pode dar a volta – como
uma escultura. Ao mesmo tempo, a obra representa a vista superior dela mesma (como
uma lâmina horizontal), com a noiva de um lado (acima do horizonte) e os
espectadores/celibatários do outro (abaixo do horizonte). A noiva desnuda por seus celibatários, mesmo representa as
projeções do espectador sobre a obra como tentativas de violação/fecundação dos
moldes machos sobre a noiva, ao mesmo tempo em que reflete e transparece, no
meio da obra, o público e o ambiente desse ato.
interdição
Sendo
dados: 1- a queda d’água; 2- o gás de iluminação, de 1946-66, sua última obra, é um
cenário interdito, acessível somente à visão. Logo de cara, um muro e um portão,
com aparência de ready made, e dois
pequenos furos na altura dos olhos. Depois, o seu conteúdo ficcional, em profundidade
real: uma mulher nua deitada de pernas abertas, semi-encoberta entre arbustos,
segurando uma lamparina no meio de um terreno acidentado com uma cascata ao
fundo; uma escultura-instalação frontal, à qual não se pode dar a volta, como
uma pintura. Um painel, plano, e um espaço tridimensional representado para os
olhos.
Sendo
Dados vai forçar as
relações do espectador com a obra obrigando-o à posição de voyeur para roubar uma cena veladamente entregue e fértil às projeções
de um espectador tornado testemunha ocular de uma possível violação. O contato
é apenas visual. O gozo possível, somente na fruição. Um prazer à distância.
arte
Em pleno modernismo, Duchamp vai
desviar o emprego e as características do meio utilizado na composição da obra de
arte para questionar este meio mesmo, a criação da obra, a sua relação com o
espectador, e a sua própria condição artística.
Levar ou não a obra duchampiana em
consideração é, evidentemente, opção individual de cada um, artista, crítico,
ou interessado, mas o desvio criado é inegável e se mantém aberto desde então. Não
haveria mais uma estética como garantia para a produção artística. Qualquer
coisa, em qualquer lugar, pode ser vista e percebida como obra de arte, e ser desviada/transformada
para tal fim. Objeto, ambiente, idéia, ação. O legado de Duchamp é essa
possibilidade de desvio (do mundo para a arte), e a consequente abertura (da
arte para o mundo); ou, antes, o princípio desviante que os move.
hoje
A arte contemporânea é inapreensível
como um todo. Manifestações diversas, e uma ampla gama de meios e linguagens, simultaneamente
inevitáveis, compartilham a rubrica artística. O mercado de arte contemporânea
é um saco de gatos, cheio de coisas boas e ruins, de acertos e erros, descobertas
e engodos, como sempre houve no meio da arte ou em qualquer outro mercado. Apenas
nunca antes na história deste país, tão facilmente exploráveis e rentáveis como
agora, um negócio promocional e de rápido retorno para os seus investidores.
O homem sempre vendeu gato por lebre.
Sempre houve quem, não sendo Midas, pintou de dourado uma pedra para vendê-la a
peso de ouro – e conseguiu. A história assume agora dimensões imprevistas. Como
obra de arte, a mesma pedra, bem justificada e promovida, pintada ou não, poderá
valer muitas vezes o seu peso em ouro. (Pode ser mesmo de ouro pintado de
dourado, ou imitando pedra, ou simplesmente assinada. Midas ao quadrado e ao
cubo.) O que estabelece, assim, a promoção e a propaganda como garantia de
valor artístico, e acaba atraindo para o mercado de arte os mais diversos tipos
de falsos Midas.
Talvez a arte contemporânea esteja repetitiva,
muito atrelada ao seu incrível valor de revenda, a investimento e valorização. Talvez
a teorização dos críticos esteja sendo sobre-aplicada em qualquer situação,
independente da obra. Talvez curadores, galeristas e colecionadores estejam
perdidos, sem saber o que fazer com tanto poder de repercussão. Mas é preciso discutir
isto abertamente nos meios de comunicação, para que o público possa se inteirar
do que se passa com a arte sua contemporânea. Ou então, restaria apenas reconhecer
que a arte teria se afastado de fato do público, justo quando parte
significativa de sua produção pretende lidar diretamente com ou sobre esse
público.