Uma
história para a arte hoje
“Arte parece constituir o
princípio de sua própria história ou pelo menos de uma história cujas relações
com a outra não estão fixadas por um determinismo estrito.”[1]
Apresentamos
aqui um programa de história da arte para estudantes dos cursos fundamental,
médio e superior (exceção feita à própria graduação em História da Arte), que tem
por objetivo promover uma aproximação aos caminhos da arte a partir de obras e questões
da arte moderna.
Considerando-se,
contemporaneamente, que o passado imediato da arte é moderno – e a sua
influência ainda presente –, é nele que vamos fundamentar as bases de nossos estudos.
Por meio da fruição e da análise de obras e movimentos modernos – e seus
antecedentes, desdobramentos e ligações com outras obras de períodos mais ou
menos distantes –, este programa visa desenvolver a percepção estética do aluno
e estimular a apreciação crítica da arte.
SITUAÇÃO
Tradicionalmente,
os programas de história da arte tomam como pressuposto o conhecimento da
história, e de um longo passado da arte, antes de abordar obras e manifestações
artísticas mais recentes. Enfileirando períodos históricos sucessivos em quatro
ou seis semestres de curso (com pequena carga horária semanal) para cobrir
milênios de produção artística[2], chama
a atenção, nesses programas, o descompasso entre o longo tempo que se leva para
alcançar a arte atual e o pouco que sobra para tratar do que foi produzido no
último século.
O
ensino da história da arte por uma cronologia estrita – da pré-história à
contemporaneidade – vai de encontro, também, ao fato de que grande parte dos
estudantes do ensino fundamental, médio e mesmo superior, não detém (ainda) informação
ou referência histórica suficiente para reconhecer o contexto social no qual foram
geradas as manifestações artísticas de períodos mais distantes. Ao tentar
acompanhar cronologicamente essas manifestações, o professor de história da
arte vê-se, muitas vezes, impelido a tratar da história – social, política,
econômica – para situar a época em que foram criadas as obras que pretende
abordar. Acontece que esta dinâmica, além de tomar uma parte significativa do
já reduzido tempo dispensado ao estudo da arte pelos currículos acadêmicos, não
consegue remediar a defasagem histórica (em tão pouco tempo) e tende a restringir
a expressão artística a uma leitura da história aplicada à arte, na qual esta é
vista, sobretudo, como reflexo do momento histórico.
A
história da arte como função derivada da história perde os rumos da arte que
pretende acompanhar. Naturalmente, são valiosas para o estudo da história as
manifestações artísticas de uma época. Bem como a informação histórica será
valiosa para o estudo da arte de qualquer período. Mas obras de arte não se limitam
a refletir o seu tempo, e vão, elas mesmas, refletir-se e afetar o tempo e a
história, presente e futura. Por isso as manifestações artísticas são vistas
aqui como fenômenos não apenas resultantes do processo histórico, mas ainda, e
principalmente, como constituintes, formadores e transformadores desse
processo.
PROPOSTA
A
contemporaneidade artística descende da modernidade. A história da arte que nos
envolve diretamente compreende, sobretudo, o último século. É na dinâmica de eventos
do século vinte – do final do anterior (dezenove) ao início do posterior
(atual) – que desenvolvemos o nosso percurso. E vão existir, neste percurso,
ligações estéticas com toda a arte já produzida em qualquer período. Ligações
que atravessam a cronologia e criam uma história própria de processos e
embates, questões e soluções relacionadas por uma lógica inerente à arte, e à
sua expressão no mundo[3].
Por
isso, para uma aproximação aos sentidos de uma obra, seria preciso, antes de
tudo, a fruição (mesmo mediada, reproduzida) e uma abordagem que acompanhe os
seus movimentos e os seus desvios – estes que, justamente, a reafirmam e
transformam, e que não se restringem a uma determinação histórica estrita. Vão
além, transcendem as relações temporais e espaciais, e, nesse movimento, afetam
a história para além do seu tempo[4].
CONDIÇÕES
A
maior parte da arte que nos cerca pelos meios de comunicação e propaganda é a de
artistas modernos, bem como a de seus antecessores e sucessores, que
anteciparam, inspiraram, deflagraram e levaram adiante o projeto de uma arte
dinâmica, crítica e autocrítica. Movimentos e manifestos os mais diversos apareceram
no século vinte – inicialmente na Europa, depois também nas Américas e na Ásia[5] – com
uma rapidez e profusão como jamais visto, antes ou depois, em toda a história
da arte. A discussão e os argumentos apresentavam-se com novas obras que realçavam
as características formais e os processos de sua própria fatura, ou
questionavam, mais ou menos diretamente, a sua posição – artística, estética,
política – no mundo.
“A essência do
modernismo está (...) no uso dos métodos característicos de uma disciplina para
criticar essa mesma disciplina, (...) o modernismo critica a partir de dentro,
através dos próprios processos do que está sendo criticado.”[6]
Uma
história para a arte, hoje, deve partir, assim,dos movimentos da arte moderna,
as vanguardas artísticas do século vinte, que, em suas articulações, vão
dialogar com obras e movimentos dos mais diversos períodos. Trilhando os seus
caminhos, descortinam-se vistas e aberturas para a arte de qualquer tempo e
lugar. Sob uma ótica moderna, e com um olhar que privilegia as obras para retraçar-lhes
os movimentos, podemos investigar a sua estética e os seus sentidos, ou a que
vêm e como vêm essas obras.
A
arte moderna nos trouxe até aqui. A partir de suas formas acostumamo-nos a
olhar as imagens da arte e do mundo. Estão por aí, ainda hoje, as suas
articulações, espalhadas por todo lugar (reconheçamo-las ou não). Por isso é
preciso assumir a leitura da arte – e sua história – a partir do presente. O
olhar aberto para o mundo e a arte atual. Uma história de e para o observador,
enquanto desenha-se pelo olhar dos artistas modernos guiando-nos pelos processos
da arte e da criação.
Revemos
e retraçamos o que fizeram os artistas modernos, que moldaram as feições e povoam
de imagens o mundo em que vivemos, para não nos vermos alijados de seus
sentidos, ou iludidos pelas características cambiantes de sua visualidade. E,
consequentemente, impossibilitados de uma apreciação crítica sobre as imagens
do mundo e da arte que nos cerca.
“Investigamos
os caminhos percorridos por outra pessoa para a criação de sua obra para,
percorrendo-os, conhecê-los. Um tal tipo de observação evita que se conceba a
obra como algo estático, irremediavelmente fixo.”[7]
PROGRAMA
O
programa aqui proposto vai começar tratando das origens da arte e de sua
permanência ao longo da história, questionando a sua ocorrência e discutindo as
motivações que levaram, e continuam levando, o homem a criar imagens e objetos
representativos e formalmente elaborados do mundo e de si mesmo no mundo. Acompanhando
as características formais de representação, podem-se identificar tendências ora
mais realistas, ora mais esquemáticas, desde as peças mais antigas de que temos
notícia.
Obras diversas serão apresentadas e relacionadas, formal e
tematicamente, explorando correspondências que desafiam o determinismo
histórico. Investigando as questões específicas da arte moderna – desde o
período imediatamente anterior e até as suas extensões para a arte contemporânea
–, serão levantadas ligações com outros períodos e estilos artísticos, observando
a sincronia e o alinhamento entre formulações estéticas através dos tempos.
Seguindo a introdução ao fazer artístico, focaremos então um
momento particular de reafirmação da representação fiel à realidade com o realismo
de Courbet, antes de enveredarmos por uma sequência que vai passar pela arte
dos impressionistas e pós-impressionistas, e pelos primeiros movimentos
modernos do século vinte, que apareceram quase simultaneamente, ou em sucessão
acelerada, sem que haja necessariamente uma prevalência temporal entre eles[8].
Partindo desses movimentos, que ficaram conhecidos como as
vanguardas artísticas do início do século, serão feitas relações de pertinência
trans-histórica com obras e períodos diversos da arte, a fim de explorar e
aprofundar as características estéticas das principais obras e movimentos do
século vinte, conforme veremos a seguir.
Ricardo Tamm Lessa de Sá
Artista, professor, doutor em Artes Visuais (UFRJ)
[1] DUFRENNE, M., Fenomenologia da experiência estética.
[2] Exemplos de representações pré-históricas, ou de culturas primitivas, tornados artísticos e históricos pela leitura à distância, teriam, no seu próprio tempo de criação, caráter bem diverso do que hoje é conferido à arte.
[3] Não se trata aqui de defender uma “teoria da visibilidade pura” ou a Escola de Viena (Riegl, Wölfllin), uma vez que não se pretende lançar mão, tampouco, de esquemas e categorias generalizantes para a classificação de obras de arte.
[4] Os artistas modernos (pré e pós) estenderam sobremaneira a liberdade de
retomar ou apoiar-se em soluções de outras épocas. Manet, Van Gogh, Picasso e
Bacon, por exemplo, foram grandes estudiosos e reintérpretes da arte de
Giorgione, de gravuras japonesas, máscaras africanas, de Velázquez e Rembrandt.
[5] Além das vanguardas do início do século na Europa, na segunda metade do século, os EUA se tornam o centro artístico mundial, onde vão proliferar novos movimentos (expressionismo abstrato, arte pop, minimalismo, arte conceitual), ao mesmo tempo em que aparecem novos grupos e movimentos também na Europa (realismo, tachismo, Fluxus), na América do Sul (concretismo, neoconcretismo), e no Japão (Gutai).
[6] STEINBERG, L., A nova arte.
[7] KLEE, P., in BREST, J. R., La pintura europea.
[8]
Se é verdade que o neoplasticismo vai
partir das conquistas estéticas do cubismo (que vai leva-lo à abstração e à
planaridade), não se pode inferir a mesma relação entre o expressionismo e o
surrealismo, por exemplo.