VALOR ARBITRÁRIO

Quanto vale uma obra de arte?

 

O valor de uma obra de arte poderia ser definido como inerente à sua constituição – valor estético – ou adquirido: fruto do gosto, das circunstâncias, do tempo – valor afetivo, documental, histórico –, e do interesse de compra – valor comercial.

Naturalmente sujeitos à interpretação, ou subjetivos, os fatores que influenciariam o valor estético seriam o tema, a forma e a expressão, característicos à obra. Mesmo imensuráveis esses fatores serviriam para orientar a apreciação estética, podendo ser considerados ainda: o meio, a técnica, os materiais, as dimensões, a época, o estado, a assinatura, a autenticação.

Com o ready made, Duchamp colocou em suspenso esses fatores, declarando o desinteresse estético motivo de escolha de um objeto qualquer como obra de arte. Não são valorizados na escolha desse objeto, nem o tema, nem a forma, nem a expressão, mas a ação – e a ideia da ação. O valor artístico do ready made seria adquirido com o deslocamento do objeto para o meio de arte, e o valor comercial com a assinatura do artista. Entre o que queria e não conseguiu, e o que conseguiu sem querer, o coeficiente artístico do ready made levou décadas para ser digerido e reverberar então nos movimentos pop, minimalista e conceitual. E Duchamp também aproveitou a valorização (estética, histórica e comercial) dos ready-mades como fonte para a arte dos anos 60/70 assinando edições numeradas de réplicas encomendadas por um grande colecionador (hoje espalhadas por museus e instituições).

A arte contemporânea a partir de então vai incorporar e valorizar o processo, qual seja – documental, artesanal, industrial, digital –, e as condições e soluções de criação, produção, apresentação, recepção e fruição.

O valor afetivo é moldado pelo gosto pessoal do fruidor da obra, sendo este gosto influenciado por diversos fatores – pessoais, históricos, geográficos, sociais.

O valor documental decorre da importância de um momento (gesto, fala, situação, posição) registrado na obra, ou pela obra – uma condição que vai associá-la a um acontecimento.

O valor histórico vai acrescentar a esses valores, o tempo – a história da criação/realização da obra, e a história adquirida pela obra ao longo do tempo.

Para o valor comercial vão concorrer os valores acima mencionados, mais ou menos presentes na obra, bem como o currículo – do autor e da obra – e, sobretudo, a promoção (exposição e notícia) – de ambos. A especulação movimenta os valores muito rapidamente, principalmente para artistas novos no mercado e grandes mestres em leilões. 

Para o autor, exceção feita a obras com materiais muito valiosos, ou monumentais, o valor de uma obra não tem relação direta com o seu custo de produção, mas sim com o valor afetivo (autoral), o tempo de produção, e (relativamente) as suas dimensões.

Para o fruidor, sendo a aquisição da obra motivada pelo seu interesse – estético, afetivo, documental, histórico, comercial –, ele mesmo será o melhor juiz de valor. A obra apreciada tem o valor arbitrado pelo seu mais adequado avaliador. Este será o valor – da obra e do comprador. O valor da obra é o seu valor arbitrário.